segunda-feira, 19 de março de 2007

Natal Distante

Mais um poema que fiz por terras do norte.
Em português, para variar.
Intitula-se: "Natal Distante".

Natal Distante 07-01-02
Uma pequena árvore de Natal a um canto da sala
Um suspiro imperceptível esvoaçando no ar
Uma estrela dourada espreitando à janela
Sob o pequeno pinheiro, mil presentes de pasmar
Qual deles com o poder de te encantar?
Talvez a caixa de soldadinhos de chumbo
Ou o anel de diamantes
Talvez a boneca de porcelana debruçada a um canto
Ou a tiara drapejada de refulgentes diamantes
Talvez os chocolates que te aguçam o apetite, quem sabe...
Ou esse suave casaco de peles que tão bem te assenta
Talvez aquele livro encostado à pequena árvore
Ou aquele colar com que sempre sonhaste
Talvez...
Talvez desta vez a prenda que desejas receber
Não esteja em lugar que a vista possa alcançar
Então, quando já começavas a desanimar
Teu olhar junto da janela, algo vem encontrar
Lá fora, a neve, cobrindo tudo com seu manto branco
Um mocho piando, à distância desse mesmo olhar
E a estrela dourada, iluminando a estrada mais além...
E, como que abrindo caminho entre o manto de nevoeiro cerrado
Nas lonjuras montanhosas da memória, lá, bem longe de tudo e de todos
Num vislumbre, eis o maior presente que te podem ofertar
Surge então, nesse instante e nesse lugar distante, teu rosto jubilante
Tornando o meu radiante... e este Natal não tão distante...

Autor: Pedro Luís Laima Bicho.

segunda-feira, 12 de março de 2007

Bergen: terceira visita repleta de novas descobertas

Não quis ficar parado durante a pausa escolar de uma semana das férias de Inverno. Aproveitei assim esse interregno para fazer mais uma das minhas viagens de exploração. Primeiro passo, o vôo até Bergen dia 23 de Fevereiro à noite. Dia 25, a partida num ferry das Smyril lines, junto com mais 5 assistentes Comenius: dois de nacionalidade espanhola e três de nacionalidade alemã. Rumo às ilhas Faroés (que em norueguês arcaico significam literalmente as ilhas das ovelhas) e posteriormente até à Islândia. No regresso, nova paragem em Tórshavn, a sua capital. Uma pequena, mas pitoresca cidade perdida nos confins do Atlântico de que falarei posteriormente.

Legenda: Mapa da Noruega. O vôo de Trondheim até Bergen através da Norwegian Airlines é bastante rápido: menos de uma hora. Na realidade, os transferes de autocarro até aos respectivos centros citadinos são a parte mais demorada da viagem. O preço também é convidativo e a meu ver, uma das razões porque encontro sempre os aeroportos noruegueses repletos de passageiros, e os aviões quase sempre transportando o número máximo de passageiros. Por uma viagem de ida e volta paguei cerca de 70€, mas claro que este preço sobe exponencialmente se não for feita a reserva com bastante antecedência. Os vôos são muita vez a solução mais cómoda, rápida e barata, pois a Noruega é um país muito montanhoso e com muitos fiordes que impossibilitam passagem directa em linha recta durante grandes partes dos trajectos. Várias cidades no norte não têm inclusive ligação ferroviária por esse motivo, tal como Narvik (que tive a oportunidade de visitar no Verão de 2005, aquando do meu último InterRail), tendo esta de ser feita pelo norte da Suécia.


Legenda: A casa dos Assistentes Comenius em Bergen. O número 10.


Legenda: Um dos ícones de Bergen: a velha igreja de madeira. Foi originalmente construída em Fortun in Sogn no ano de 1150, mas foi posteriormente deslocada para a sua localização actual, em Fantoft, em 1883
. Em Junho de 1992 foi vandalizada e ardeu completamente, tendo sido reconstruída uma réplica em tudo semelhante à original. Situa-se a alguns quilómetros do centro de Bergen, sendo a sua visita possível através de autocarros. O bilhete custa cerca de 3€, sendo necessário comprar outro no regresso. Uma ressalva, no entanto. Como tantos outras atracções turísticas, encontra-se encerrada durante o Inverno. Pode ser visitada de 15 de Maio a 15 de Setembro, das 10h30 às 14h e das 14h30m às 18h. Preços: adultos- 30NKr, crianças- 5NKr, estudantes- 20NKr. É uma igreja que impressiona, não pelo seu esplendor, mas sim pela sua invulgar beleza, com as suas cabeças de dragão cuspindo fogo, representando a parte pagã associada ao recém-descoberto fervor cristão.




Legenda: Os dois assistentes espanhóis com quem fiz a visita à igreja: Rocio, que vive em Bergen e Peña, em Sandnessjoen, ao norte de Trondheim.



Legenda: Eu do lado de dentro da vedação. Neste momento, o alarme já soava, mas eu juro que a única coisa que fiz foi passar em frente à porta de entrada. Não toquei em nada. Creio que o mui estridente alarme faz parte das novas medidas de segurança, após os actos de vandalismo de que a igreja foi alvo em 1992, como já referi atrás. E funciona muito bem, como pude comprovar.

Legenda: "Jumping over the fence", como diriam os ingleses. E foi assim que rasguei o meu terceiro par de calças de ganga por cá. As anteriores tinham sido a jogar basquetebol e a andar de bicicleta. De modo que, quando regressei ao centro de Bergen, tive que ir comprar umas calças novas. Custaram 500NKr, um balúrdio!! Mas como não tinha muito tempo nem vontade de procurar umas mais baratas, assim que encontrei umas que me agradaram, comprei-as e pronto.



Legenda: O Bergen Kunstmuseum. Kunst significa arte em português, pelo que se trata do Museu de Arte da cidade de Bergen. Um dos mais importantes do país. Bergen é a segunda cidade da Noruega com mais habitantes a seguir a Oslo, sendo que Trondheim, onde resido, é a terceira. Para além do edifício visível na foto, possui outras duas instalações onde se encontram diversas obras, das quais a mais importante é a colecção Rasmus Meyer, que se encontra num palacete do outro lado da rua, a cerca de 100 m de distância. Possui importantes colecções de vários pintores, noruegueses e não só: Pablo Picasso, Christian Krohg, Gerhard Munthe, Harriet Backer,Oluf Wold-Torne, Thorval Erichsen, Nikolai Astrup (considerado como um dos últimos grandes Neo-Românticos noruegueses e com uma ala dedicada exclusivamente às suas criações artísticas), Anders Svarstad, o pintor romântico J.C. Dahl, que para muitos é considerado como o pai da pintura norueguesa e ainda uma importante colecção de Edvard Munch (a sua mais notória obra, O Grito, pode ser encontrada em Oslo).


Legenda: Acho muita piada a estes moldes em que incidem projecções de animações, dando-lhe um aspecto muito real. Recordo-me dum outro bem maior que vi dois anos atrás em Armagh, na Irlanda do Norte, quando residia em Belfast por intermédio do Programa Erasmus. Um Gulliver enorme, mas que ainda assim, não parecia tão real como este simpático sapinho.


Legenda: "Clearing snow over the Seine", de Christian Skredsvig. Um quadro de grandes dimensões, característico do Realismo, alinhado com a corrente francesa de arte europeia contemporânea. Data da segunda metade do século XIX. Para quem conhece bem Paris, é possível descortinar a Ile de la Cité ao fundo, e o Instituto de França e o Quai Malaquais. Possívelmente, o ponto de observação para quem vê, será sob a Pont du Carrousel.

Legenda: Vista parcial do centro de Bergen. A foto é tirada junto ao local onde os ferries atracam, num dos extremos da cidade.

Legenda: Junto ao mesmo local, uma outra perspectiva da cidade. Ao fundo e do outro lado do rio, é possível avistar um pequeno parque onde se encontra um curioso totem de madeira. Nas imediações, encontra-se também o Bergen Aqvariet, que tive oportunidade de visitar numa outra visita a Bergen e que recomendo.

Legenda: Nem queiram saber o que diz este papel. O barco vinha com 16 horas de atraso devido ao mau tempo registado no Atlântico Norte e, aparentemente, nós fomos os únicos que não tínhamos sido informados. Escusado será dizer que ficámos pior que estragados...

Legenda: Nesta altura ainda não sabíamos bem o que fazer à vida, pelo que fizemos umas merendas e tomámos o pequeno-almoço ali mesmo. O portátil a apanhar ar foi uma vã tentativa minha de encontrar uma rede wireless nas imediações.


Legenda: E pronto. Aqui já sabiamos o que nos esperava. Deixámos uma nota (escrita em norueguês) de protesto e fizemo-nos de novo à estrada, de volta ao apartamento. E levantei-me eu às seis da manhã para isto!!! Novo horário de partida: 23 horas.


Legenda: Bergen Hanseatisk Museum. Chegado a este ponto, as opções que tinha eram duas: descansar ou aproveitar as horas extra e conhecer um pouco mais a cidade. Resisti à tentação de ver a final da taça inglesa Chelsea-Arsenal, que se encontrava a dar em vários pubs e optei pela segunda, sendo que as fotos que se seguem são do referido museu. Esta foto mostra a esfera de influência da Liga Hanseática, nos seus tempos aúreos. Uma das cinco cidades onde tinham escritórios era precisamente Bergen, e foi precisamente aqui que o museu assentou arraiais. É um museu a visitar. E o preço é simbólico.

Legenda: Aspecto faustoso de como era o mobiliário da época. Muito colorido (muitos vermelhos e verdes, fazendo lembrar terras de Portugal) e muito ornamentado.


Legenda: Este era o reverso da medalha. Os dormitórios eram de uma pobreza Franciscana. O edifício era completamente em madeira e a iluminação, bem como o aquecimento, estritamente proibidos. A causa: desde sempre, as cidades norueguesas foram alvo de fogos devastadores, devido à natureza e precaridade das suas construções. Bryggen, onde os escritórios se situavam, foi completamente destruída num desses incêndios e após a sua reconstrução, essas medidas cautelares entraram em vigor. O que deveria tornar a vida dos seus habitantes num verdadeiro inferno (mas ao contrário, totalmente gelado!). A juntar a isto, a Liga exigia aos seus funcionários estritas regras de celibato, pelo que a hipótese de se aquecerem por essa via, também estava descartada. Achei também curioso o facto dos baús e cofres que encontrei, tal como o que aparece na foto, terem todos três fechaduras. Já nessa altura como agora, a oportunidade faz o ladrão...



Legenda: O intrépido grupo de Assistentes Comenius, prestes a embarcar rumo à Islândia e às Faróes. Da esquerda para a direita: eu (português dos sete costados!), Peña e Rocio (espanhóis), Arne, Anja e Juliana (alemães). Hora local: 23 horas. Horas de atraso do ferry da Smyril Line: 16 horas.

Norskkurs: arte dentro da lancheira

Em meados de Janeiro iniciei finalmente as minhas aulas de norueguês. Em boa verdade, deveria tê-las iniciado após a minha chegada, mas como só se iniciaram novos cursos em Janeiro e os que já decorriam em vários locais, encontravam-se numa fase bastante avançada para ainda ir a tempo de fazer parte de um deles, esta foi a solução possível.
O curso que frequento é oferecido pela NTNU, a universidade local, e pelo que me dizem, é bastante bom. Pela módica quantia de 440NKr (que correspondem a cerca de 55€) tenho direito a cerca de 16 semanas de aulas, duas vezes por semana ao fim da tarde. No total, são cerca de seis horas semanais e já noto bastantes melhorias aos níveis da compreensão oral e escrita. No entanto, às 440 NKr iniciais, acrescem 715 NKr adicionais, que tive de desembolsar em livros de apoio, bastante bons, por sinal.
A minha Agência Nacional só comparticipa, no entanto, o curso de norueguês (e com um plafond máximo de 150€), pelo que as despesas em material de apoio são inteiramente suportadas por mim. Como tantas vezes acontece em Portugal, os custos em educação são suportados a expensas próprias. Como exemplo, posso referir vários assistentes Comenius de outras nacionalidades que têm as despesas relacionadas com os cursos de língua materna dos países de acolhimento totalmente suportadas pelas respectivas Agências Nacionais.
Relativamente à minha adaptação linguística, posso dizer que já começo a entender os títulos dos jornais, o que, não sei bem porquê, mas deixa-me algo apreensivo. Contudo, devo referir que praticamente desde que cheguei a estas paragens, que iniciei em simultâneo um intercâmbio linguístico com algumas amigas que entretanto fiz por cá. Em troca de lições de português (e às vezes, também de espanhol) recebo lições de norueguês, o que se tem revelado bastante útil. Aliás, por esse motivo, mesmo estando no nível 1 no Norskkurs, desde o início tenho sido dos melhores alunos e dos que mais têm evoluído na aprendizagem do norueguês. E dos mais esforçados, também. O que não é fácil, atendendo a tratar-se de uma língua germânica (e com a qual apresenta bastantes semelhanças), com origens bastante diferentes das raízes latinas da língua portuguesa, a minha língua materna. Enfim, para resumir, como aprender novas línguas é para mim um prazer, creio que mais uns meses e vai-se tornar em mais uma das minhas "invulgares habilidades". (o:




Legenda: Dragvoll, em fundo. Faz parte do campus universitário da NTNU. Fica num dos extremos da cidade e foi onde vi o meu primeiro alce por estas paragens. Ao princípio pareceu-me um cavalo, mas depois vi tratar-se de um alce. Um juvenil, creio. Mas era enorme e não possuia hastes. Devia ter fome, pois nesses dias os termómetros marcavam 20 graus abaixo de zero e durante a noite baixavam ainda mais, e andava a rondar um dos parques de estacionamento de Dragvoll. Infelizmente, assustou-se com o autocarro e não fui a tempo de tirar uma foto. Mas foi por pouco. A paragem de autocarros que se vê na imagem é onde apanho o autocarro número cinco para Studenter Samfunnet, onde vivo. Em português, significa qualquer coisa como Associação de Estudantes, pelo que, como podem ver, estou muito bem localizado. Moro por detrás do edifício principal da NTNU, a 5 minutos a pé do centro da cidade. E mesmo em cima do acontecimento, no que se refere à vida universitária. Mas devo dizer que não tiro lá muito partido da localização priviligiada. Há sempre tanto que fazer e tão pouco tempo livre.

Legenda: Moi même, à porta do edifício onde tenho as aulas de norueguês. Com muita neve à mistura. Um manto branco que mascara as ruas e lhes confere uma aura muito própria. Os mesmos locais sem neve parecem vir de mundos diferentes. Creio que quem tirou as fotos, foi um dos meus colegas de curso, um do Bangladesh.

Legenda: Um lanche patrocinado pela nossa professora de norueguês, Birte Hillestad. É um grupo bastante heterogéneo. Da esquerda para a direita, as nacionalidades são as seguintes: Uganda, Portugal (o de verde, que sou eu!!), Irlanda, Japão, França e Japão novamente.

Legenda: Mais alguns dos meus colegas de curso. Novamente, da esquerda para a direita, as nacionalidades são as seguintes: Brasil (com quem às vezes troco algumas impressões em português), China, Indonésia, Alemanha e Irão.

Legenda: E esta foi a razão do lanche. A par com o convívio, o objectivo era aprender a fazer os nossos próprios matpakke, que traduzido é qualquer coisa como almoços embalados, desses que se transportam em lancheiras. Se bem me recordo, esta foto é de uma das sandes de um dos meus colegas japoneses chamado Seiki, e que faz parte da orquestra sinfónica de Trondheim.

Para concluir, devo dizer que este lanche convívio foi bastante agradável. A par do Seiki, fui eleito como um dos "criativos" na arte de fazer sandes. Não me recordo bem em que consistiam, mas sei que fiz umas combinações um pouco invulgares. Mas sabiam bem, tanto assim foi que depois houve mais quem as fizesse. Para além dos que surgem nas imagens, no total somos perto de 20. Na sua maioria encontram-se a fazer pós-graduações e doutoramentos, mas há alguns professores, como eu, e os restantes trabalham em diversos sectores e mudaram-se recentemente para a Noruega. Para além das nacionalidades já mencionadas, há ainda mais algumas presentes, a saber: Finlândia, Canadá, Bangladesh, Paquistão, Itália e Argentina. É muito interessante interagir com pessoas de nacionalidades tão diversas e alguns costumes próprios das suas terras-mãe.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

O meu desporto radical

Como já referi em ocasiões anteriores não é fácil pedalar na neve. Mas, ao mesmo tempo, representa uma espécie de desafio que eu não me importo de superar uma e outra vez. O trajecto que as fotos mostram é o caminho que tomo três vezes por semana para a Middle School, onde estudam os alunos mais velhos.
Normalmente, faço o trajecto pelo passeio (se é que se pode chamar passeio aquilo, mas enfim), mas algumas partes são de terra batida. Às vezes, os caminhos estão completamente obstruídos e vejo-me mesmo obrigado a ir para a estrada, onde os carros prosseguem a sua inefável caminhada rumo a mais um dia de trabalho. Como eu, aliás. Os condutores na sua maioria, são educados e respeitam quer os ciclistas, quer os peões, o que é sempre de registar com agrado. Nem todos os países podem dizer o mesmo, infelizmente.
A sequência de fotos mostra a vinda de Middle School, uma vez que na viagem de ida não tenho tempo para andar a tirar fotos!!! Aliás, e nem sequer é de dia às 8h da manhã. Apesar disso, nos dias que correm já há alguma claridade, mas em Dezembro lembro-me claramente que estava ainda escuro como breu a essa hora. As fotos mostram também a muita neve que veio desde inícios de Janeiro e nunca mais abandonou a cidade. Já ando um pouco farto, diga-se de passagem. Adiante, perceberão porquê. Durante alguns dias os termómetros chegaram mesmo a passar dos 20 graus abaixo de zero. Nunca senti tanto frio como nesses dias. Tanto frio que até doía, mesmo agasalhado. Sem protecção suficiente, dedos, orelhas, nariz e afins, em menos de um minuto não passam de meras recordações. E a face fica toda vermelhusca, parece que estivemos a beber uns copos!! (o:
De igual forma, é muito mais difícl respirar a essas temperaturas, quanto mais fazer exercício. Na semana passada ao andar de bicicleta, tinha de fazer um esforço redobrado para inspirar a mesma quantidade de oxigénio e poder prosseguir ao mesmo ritmo. As fotos ilustram também um pouco o desleixo pelos peões. As máquinas limpa-neves fazem grandes montes de neve suja (um espectáculo muito pouco agradável de ver) e atiram com os restos para as bermas. O resultado é que muitas vezes os caminhos se tornam impraticáveis, estreitos, ou então, transformam-se em autênticas paisagens lunares. Estou um pouco desapontado com os noruegueses a este respeito, pois sei que em países com menos neve, as vias são rapidamente desobstruídas e rapidamente ficam em condições. Por aqui, vão ficando desobstruídas e definitivamente, não ficam em boas condições. Não é por acaso que eu vejo tanta gente a coxear e de muletas na rua. Tem dias que é mesmo complicado circular, parece que nos estenderam um longo tapete de cascas de banana para nós nos podermos divertir à vontade. Ou não. Ainda se ao menos desse para comer as bananas (o: Às vezes quando tenho pressa, não acho mesmo piada nenhuma. Adiante.
Com uma ou duas pessoas a atravessar os caminhos estreitos e a neve a derreter, tornando tudo numa pista de gelo escorregadia e irregular, estão reunidos os ingredientes para um dia de pesadelo para todos os ciclistas que se aventuram nesses dias. Está bom de ver que eu sou um deles. Afinal, é o meu desporto radical. Nem paus nem pedras, nem frio nem gelo me demovem do meu objectivo. Chegar à escola a tempo e horas. Legendas não são necessárias. As fotos falam por si.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Ciências: unidades de mensuração

As fotos que se seguem dizem respeito a experiências sobre unidades de mensuração que preparei quinze dias atrás para os alunos mais velhos de Birralee (9º-11º anos). Estes estudam num outro edifício com o nome de Middle School, situado nos arredores da cidade. As minhas peripécias de bicicleta na neve e gelo ocorrem na sua maioria, a caminho desta escola.
É mais ou menos meia hora de bicicleta desde a minha casa até lá. A andar bem! (o: O que é bom para mim, pois o caminho tem uma certa inclinação e assim faço no minímo uma hora por dia a pedalar. Juntem-lhe neve, gelo, caminhos estreitos para onde os limpa-neves atiram com a neve da estrada, pisos ora escorregadios ora irregulares, pedestres distraídos, condutores como os daí (e está tudo dito!), o facto de ir sempre carregado com coisas da escola e às oito da manhã, quando ainda nem sequer é de dia e outras delícias que não vale a pena contar e podem ver como me divirto todas as manhãs sempre que me desloco para a escola... é a minha versão de desportos radicais na neve.
Tinha um registo limpo quanto a quedas, mas lá acabei por cair um destes dias ao desviar-me de um carro. Entrei para uma cova de um trilho de pneus dos carros. Quando o gelo está a diferentes temperaturas(que nos últimos dias chegaram aos 20 graus negativos, um recorde, desde o início da minha estadia aqui), a probabilidade de se cair aumenta substancialmente, o que acabou por acontecer mesmo dessa vez. Não obstante esse pequeno percalço, devo dizer que me considero-me bastante bom neste desporto radical! (o:
As estações de experiências que preparei diziam respeito a uma lição de física sobre unidades de mensuração: tempo, massa, densidade, volume e distância. Foram experiências interessantes de realizar e os alunos aprenderam e divertiram-se simultaneamente, o que é sempre de assinalar. Infelizmente as experiências que envolveram a manipulação de liquídos deixaram algumas das mesas num estado um pouco lastimável no final das experiências, mas por muito que se diga e avise, outra coisa também não era de esperar.
Na semana seguinte procedi de forma semelhante, mas as experiências foram desta feita sobre o som. Os alunos divertiram-se imenso a descobrir os segredos do som através de diversas experiências: recriar uma escala de oitavas, criar um telefone rudimentar, pondo-se na pele de Graham Bell, entre outras. Os resultados foram assaz satisfatórios.


Legenda: Michael e Maria, junto à mesa de ténis de mesa, medindo distâncias entre diferentes partes do edifício. O objectivo era determinar quantos metros percorriam cada dia na escola.

Legenda: Christiana e Sharzad (este nome parece invulgar, mas é de origem persa e em português é equivalente a Sherazade) fazendo uma experiência sobre a densidade de diferentes materiais. Três líquidos e três objectos sólidos, diferentemente distribuídos, segundo as suas próprias densidades vertidos num recipiente. Não consegui determinar, mas talvez a rolha (um dos sólidos) fosse de origem lusitana.

Legenda: Asmita (do Nepal) e Isabel (do Zimbabwe) preparando-se para iniciar a experiência sobre o volume. As diferentes proveniências de muitos dos alunos (e também dos professores), são um dos factores que enriquecem e muito a atmosfera em que as aulas se processam normalmente.

Legenda: Linni e Veera (da Finlândia) na estação relativa ao tempo. Aqui o objectivo era determinar quanto tempo a areia da ampulheta demorava a passar de um lado para o outro e depois em determinar quantas vezes seria necessário virar a ampulheta para ter um registo preciso das horas, sem o auxílio dos modernos relógios.

Legenda: Juni (estudante recentemente transferida para esta escola) e Katrine (que anteriormente viveu no Dubai) na estação relativa à mensuração da massa. O objectivo era medir diferentes moedas com uma balança de precisão (que afinal não era assim tão precisa, mas enfim) e fazer diferentes cálculos, como por exemplo, quantas moedas de 10NKr se podem encontrar num quilograma de moedas de 10 NKr.

Legenda: Michael e Maria determinando o volume de vários poliedros (com orifícios para se encherem de água, através do auxílio de cilindros graduados). Num dos poliedros o volume foi calculado através do auxílio de uma régua e depois o seu valor foi comparado ao do volume resultante do enchimento com água do respectivo poliedro.

domingo, 11 de fevereiro de 2007

Seven

Outro poema em inglês que escrevi por cá. Bom, mas a pedido de várias famílias, os próximos são em português! (o:
Seven 15-12-06
Seven are the days of the week
Seven, the number written on that lid
Seven steps before the grid
Lives the crow that cannot read
Seven ways to unleash greed
Seven demons to feed
Seven words of need
Meadows of poppies in the evening
Seven suns over the horizon
Seven moans across the valleys
Seven phones ringing in alleys
An old oak’s branches swinging back and forth
Seven sins that were set
Seven seems a number to forget
Seven is the number you just met
The cold grass turning red you admire
Seven drops of blood of the friar
Seven breaths of fire
Seven were the lies of the liar
A dead body with a story to tell
Seven pathways to hell
Seven angels that fell
Seven times rang the bell
A man walking away in the distance
Seven winds fasten his movement
Seven promises not to look back
Seven farewells in the horizon
Washing away the guilt
Seven tears to remember, in a world full of anger
Seven fears in a chamber
Seven words of amber

Autor: Pedro Luís Laima Bicho.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Broas de azeite

E perguntam vocês, o que são broas de azeite? São umas broas muito simples de fazer. Como desde que cheguei a estas paragens tenho feito diversas "experiências científicas" aproveitando-me da boa vontade dos norugueses e norueguesas em provar os meus bolinhos, já posso juntar os bolos à minha lista de truques que sei fazer. Pelo menos, ainda não me morreu nenhuma cobaia na escola Birralee e na Middle School, onde estudam os alunos mais velhos. Aliás, os miúdos da escola ficam sempre com uma cara muito satisfeita depois de comerem os bolinhos, mesmo eu dizendo que não estão grande coisa. Acabo por ter sempre de improvisar um pouco, pois alguns ingredientes são por vezes difíceis, senão impossíveis de encontrar. O mesmo vale para as sopas que também já fiz por cá, sobre as quais falarei numa outra ocasião. Fazem parte da campanha de divulgação da cultura portuguesa que estou a "tentar" levar a bom porto. Se sai bem ou não, não sei. Mas que não ficam indiferentes, isso é um dado garantido. A experiência seguinte foi feita hoje à tarde em casa. Atenção, as imagens que se seguem poderão ser eventualmente chocantes. Se tiver um coração fraco, por favor não continue a ler estas linhas.
Legenda: Bom, então não é facilmente impressionável. Óptimo. Mas atenção. As imagens que se seguem são ainda mais fortes!! Após fazer a massa, pincelar com um pouco de gema de ovo e meter umas amêndoas a enfeitar, aí vão as broas na sua missão heróica para dentro do forno. Será que vão sair em condições?!!
Legenda: Bem, quanto mais se suja, mais se lava... a não ser que haja uma máquina de lavar loiça por perto!! Abençoada máquina! (o:


Legenda: O produto final. O sorriso estampado na cara do artista. Alguém quer um bolinho?
Legenda: E pronto. Uma pilha de broas de azeite prontinhas a servir. Dezassete, no total. Enormes, não fazem ideia. Tentei fazê-las mais pequenas, mas a verdade é que sem balança em casa, foi tudo feito a olhómetro. A massa estava muito pegajosa, agarrava-se-me aos dedos, pelo que a solução mais prática foi fazer menos broas, mas maiores. Acho que ficaram razoáveis. Ofereci a umas norueguesas que moram cá em casa e gostaram. Acho que foram sinceras. Pelo sim, pelo não, mantive-me alerta para ver se havia efeitos secundários ou se eram boas para comer. Não fizeram caretas nem vi nenhuma ir à casa de banho nos minutos seguintes, pelo que dei a experiência como aprovada (o:
Legenda: Claro que escolhi o melhor bolinho para mostrar na foto. Mas digam lá se tem ou não tem bom aspecto? (o:

Aqui fica a receita para os mais afoitos:

Broas de azeite

Ingredientes (20 broas): 0.5kg de farinha ; 250g de açúcar ; amêndoas ; 4 ovos ; uma pitada de sal ; uma chávena de azeite.

Preparação: misturar três ovos com o açúcar. Juntar o azeite. Mexer tudo. Juntar a farinha e misturar tudo muito bem. Separar a gema da clara do ovo restante. Bater a gema e pincelar a parte de cima de cada broa com um pouco de gema de ovo. Juntar uma ou duas amêndoas, a gosto. Levar ao forno quinze minutos até as broas ficarem com um aspecto dourado.

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Latin Festivalen

Realizou-se de 27 a 29 de Janeiro de 2007 em Trondheim um festival de música latina. O evento decorreu no Royal Garden, o maior hotel da cidade, situado junto a uma das margens do rio Nidelva. Neste amplo e bem cuidado espaço interior decorriam simultaneamente vários espectáculos, nos diferentes palcos disponíveis. De música, mas não só. O preço foi bastante caro, contudo. Para entrar, tive de pagar a módica quantia de 300NKr, que dava acesso a todos os palcos onde decorriam os diferentes espectáculos. Mais informações disponíveis em: www.latinfestivalen.no












Legenda: Três bailarinas de Flamengo. O vermelho dos seus trajes contrastava e de que maneira com o nevão que caía na rua, onde a neve tinha uns bons dois palmos de altura.




Legenda: Katia Cardenal, da Nicarágua. Uma voz timbrada, doces melodias, com princípio, meio e fim. Gostei. Fizeram os meus olhos brilhar uma e outra vez, em mais do que uma passagem.


Legenda: os inevitáveis grupos de capoeira. Muito populares, por estas paragens. Segundo se diz, este misto de dança/artes marciais terá sido a forma dos escravos negros das senzalas brasileiras praticarem entre si técnicas de auto-defesa, pois não lhes era permitido possuir quaisquer tipos de armas. À parte o instrutor, creio que todos os praticantes eram noruegueses, o que atesta bem da popularidade da capoeira em Trondheim. Muito agradável de ver e ouvir.



Legenda: A encerrar a noite, no palco principal: os cubanos Elito Revé y su Charangón. Se não me enganei a contá-los, eram quinze. Nesta altura, as cadeiras já tinham sido todas retiradas e foi possível um pé de dança ao ritmo latino da salsa. Eu tentei, mas a certo ponto, já estava no mais bem acessivel ritmo disco: no rules apply (o:

Legenda: Inevitavelmente, uma foto minha. Devo dizer que fui muito bem acompanhado para a festa. Nada mais nada menos do que quatro norueguesas... se bem que só uma é que era loira, mas enfim. Não se pode ter tudo! (o:

Para além dos já mencionados espectáculos, também assisti a partes de dois outros: Tom's diner, em que o cantor era um norueguês, por certo já na casa dos sessenta, mas possuidor de uma vitalidade e ritmos extraordinários, que contagiava o público com as suas melodias latinas. E sem sotaque, o que é assinalável. Gostei particularmente de um outro grupo chamado Semblanza. A vocalista, também ela norueguesa, mas dominando perfeitamente a língua de Cervantes. Tinha uma voz muito bem colocada, gostei bastante.

Por fim... não era para falar disto, mas pronto. No início da noite existiu um minicurso de salsa. Está bem de ver que eu fui a correr experimentar. Após quinze frustrantes minutos, trocando de par e trocando os pés a uma velocidade estonteante, decidi que já chegava de vergonhas por uma noite. Passei a observar tudo e todos de uma distância segura, sentado numa rica cadeira (o: Duas ilacções: nada é tão fácil quanto à primeira vista possa parecer. Tudo dá trabalho e tudo leva o seu tempo. A segunda ilacção: como não pisei ninguém, julgo que o saldo foi positivo. Estou pronto para a fase dois!! (o: