sábado, 12 de janeiro de 2008

A floresta mágica

Como não há duas sem três, aqui está a terceira história infantil que terminei, na primeira semana de Dezembro. Como fui acrescentando detalhes sobre detalhes, tornou-se um pouco mais longa que as que a antecederam.

A floresta mágica

Era uma vez uma floresta que ficava longe, muito longe, nos confins do mundo. Tão longe ficava, que se contavam pelos dedos das mãos os homens que já a tinham visitado. Era uma floresta mágica.
Nessa manhã de Domingo, o Rafael decidiu acompanhar o pai. O pai era caçador e todos os Domingos ia caçar nas redondezas. É certo que quase nunca apanhava nada, mas o pai, que se chamava Miguel, gostava imenso dos seus passeios matinais. Domingo que não fosse caçar, não era Domingo.
Pois nesse Domingo, o pai não iria sozinho. O Rafael queria ver em primeira mão porque é que o pai gostava tanto de ir caçar aos Domingos. Ele nunca falava sobre as suas caçadas e isso despertava-lhe imenso a curiosidade. Raramente trazia caça para casa, pelo que devia ser um péssimo caçador. Que estranhas aventuras teria o pai para contar? Bem, certo, certo, era que o próximo dia já lhe cheirava a aventura. Mal podia esperar pelo dia seguinte.
Na véspera já perguntara ao pai se o podia acompanhar. Este, estranhara inicialmente o desejo do filho, pois era hábito do Rafael passar sempre as manhãs de Domingo na cama, mas lá acedeu, após muita insistência do filho e combinaram pôr o despertador para as seis da manhã do dia seguinte. O Rafael nem se queixou da hora, tal era a sua sede de aventuras.
À hora marcada, o despertador tocou: TRIIMM!TRIIMM!
Saiu disparado da cama que nem uma seta. Vestiu-se num ápice, foi à casa-de-banho e ainda não tinham passado cinco minutos, já se ouvia o bater da sua mão na porta do quarto dos pais.
- Tem calma, Rafael. Ainda não estou pronto. Espera mais um minutinho. E não faças tanto barulho, olha que acordas a tua mãe, acrescentou ainda.
- Vá lá, pai. Está a fazer-se tarde, retorquiu o Rafael.
Alguns minutos se passaram e finalmente o pai saiu do quarto. Por essa altura, já o Rafael ardia de impaciência.
Pequeno-almoço tomado e fizeram-se à estrada. O pai costumava ir caçar para uma floresta a cerca de 20 kms de distância da cidade. Era uma floresta muito antiga, atravessada por um rio de águas impetuosas e com várias montanhas que se espalhavam pelo horizonte numa e outra direcção. Várias árvores eram tão altas, tão altas, que nem se via bem onde terminavam.
Mais ou menos a meio do caminho, sairam da estrada principal e enfiaram por um caminho de terra batida. Lá fora, já se ouvia o chilrear dos pássaros à distância, só entrecortado pelo barulho que o carro fazia ao se deslocar, tantos eram os buracos que existiam na estrada. Cada um deles provocava um solavanco no carro e um sorriso no Rafael, que parecia imensamente divertido com a situação. Só o pai se ia lamentando pelo caminho do estado lastimável em que a estrada se encontrava.
- Ainda falta muito para chegarmos?, perguntou.
- Não, filho. É já ali à frente. Tivemos sorte com o dia, não?
- Pois foi. Que rico dia de sol. Adoro quando o céu está assim azul, azul.
- Olha, já chegámos. Vou estacionar ali, debaixo daquela árvore.
O carro ficou debaixo de uma árvore frondosa, num local em que a estrada alargava e formava uma espécie de largo. O Rafael estava deslumbrado com a paisagem. Ao sair do carro, a empatia foi instantânea. A explosão de verde em redor e os sons característicos que se ouvem em qualquer floresta digna desse nome, inebriaram-no de imediato.
Prosseguiram pela margem do rio durante algum tempo, rindo e conversando sobre as famosas caçadas do seu pai, em que chegava sempre a casa de mãos a abanar, quando de repente o pai parou, de súbito e lhe disse para não fazer barulho.
- Pára, Rafael. Vi uns juncos a mexerem-se além na curva do rio.
- O que é, pai?
- Shiuuuu!! Silêncio. Fica aqui.
E, passo a passo, prosseguiu em frente, tentando fazer o menor ruído possível. Ao aproximar-se, de novo viu os juncos agitarem-se. Avistou algumas sombras movimentando-se entre a vegetação. Não tardou muito, ouviu um inconfundível quá-quá e, num murmúrio quase imperceptível, falou para com o seus botões:
- Temos pato para o jantar!
Estava agora a apenas 20 metros de distância. Lentamente, muito lentamente, começou a levantar a carabina. Apoiou a coronha no ombro e apontou a mira para o meio dos juncos.
Três tiros ressoaram no ar, uns a seguir aos outros, interrompendo a calma da floresta: PUM! PUM! PUM!
Esperem lá...e o seu filho Rafael, que será feito dele?
Voltemos um pouco atrás na história, quando o pai o deixou sozinho.
Julgam que ele ficou escondido e em silêncio como o pai pedira?
Nem pensar! Era muito irrequieto para ficar no mesmo lugar muito tempo. Ademais, havia toda uma floresta para explorar. E muitas aventuras para viver, que o dia ainda mal tinha começado.
Se não podia seguir em frente, para não assustar a caça, nem fazer zangar o pai Miguel, então iria ao longo da margem do rio, mas no sentido oposto. Era impossível perder-se e, mais a mais, sabia onde o carro estava estacionado.
Decisão tomada, pôs-se a caminho. Nem dois minutos tinham passado, quando estremeceu todo ao ouvir três disparos, uns a seguir aos outros. Era o pai. Teria morto algo?
No seu intímo, desejava que não. Não era lá muito justo com as armas de fogo. Os animais praticamente não tinham hipóteses nenhumas. Bem, mas com a pontaria do pai, não tinha que se preocupar muito com a sorte dos pobres animais.
Mais valia não atrapalhar a sua caçada, para depois não se desculpar caso falhasse, com ele. E continuou a andar junto à margem do rio.
Não tardou, viu uns corços que tinham vindo matar a sede ao rio.
Dois eram fêmeas e um era macho. Tinha a certeza que era assim porque tinha lido algures que os veados machos tinham longas hastes, ao contrário das fêmeas. E o corpo era um pouco maior. Infelizmente, assustaram-se quando de repente o Rafael pisou um galho seco e em segundos desapareceram no meio da floresta, deixando-o profundamente descontente com a falta de cuidado.
À medida que caminhava, ia olhando para a esquerda e para a direita, reagindo a cada nova descoberta com um brado de espanto e admiração. Tudo era novidade. E de uma beleza que nunca imaginara ser possível.
Duas lontras que brincavam numa das margens cativaram-lhe o olhar. Parou, como que suspenso no ar. Escondeu-se atrás de uma árvore e ficou a observá-las. Uma tinha acabado de pescar uma truta e havia outra que lha tentava tirar. Ora puxava uma, ora puxava a outra. Tanto puxaram pelo peixe, que a truta ficou desfeita em duas e cada qual chegou-se a seu canto para comer o seu quinhão do petisco.
- Nunca tinha visto lontras ao vivo, só na televisão. É muito diferente ver como os animais são na realidade, pensou. Ainda bem que vim, não tem comparação nenhuma. E seguiu em frente.
Mais à frente, um guarda-rios pousado num ramo seco junto à água, fê-lo perder o fôlego. De bico fino e alongado, parecia um rei sentado no seu trono. O dono daquela parte do rio. A sua plumagem era magnífica, em tons de verde e azul, púrpura e amarelo. Todas as cores do arco-irís pareciam estar presentes, mas a esta distância era-lhe difícil afirmar com toda a certeza.
Um pouco mais à frente, na curva do rio, avistou uma cascata. Já à algum tempo que vinha ouvindo o som da água quebrando-se no rio e perguntava-se sobre o que conseguiria fazer um estrondo tão grande. A resposta? Uma cascata enorme, como descobriu em seguida. Um outro braço de rio terminava abruptamente numa das montanhas vizinhas, e, sem poder seguir em frente, despenhava-se no vazio, caindo pela montanha abaixo, vindo encontrar na sua base, o rio ao longo de cujas margens caminhava, cobrindo tudo com incontáveis salpicos.
Aproximou-se da cascata, que por sorte, estava do mesmo lado em que caminhava. E começou a levar com os salpicos de água no rosto e no corpo. Pareciam esvoaçar no ar, por toda a parte, como borboletas transparentes. Primeiro apenas alguns, mas, à medida que se aproximava mais e mais, tornaram-se tantos, que por momentos pensou mesmo que começara a chover. Olhando para trás, confirmou que não. O sol ainda estava lá. O céu azul, lindo de morrer, por sinal, também. E um pequeno arco-íris suspenso no meio do ar que o fez suster a respiração.
- Que lindo!
A curiosidade que ele tinha para dar e vender, começou a funcionar. Por brincadeira, estendeu uma mão sobre aquela massa de água toda que caía lá do alto. Já estava praticamente todo molhado dos salpicos, pelo que não fazia grande diferença.
Além do mais, a caminhada provocara-lhe sede.
Provavelmente de tanto esbracejar e brincar com a água, que lhe ensopava agora as roupas e a alma, não é que o Rafael acabou mesmo por se desequilibrar e cair ao rio?
- SPLAAASH!, fez o seu corpo com grande alarido, estatelando-se na água. O que lhe valeu foi ser bom nadador. Ainda se engasgou e engoliu uns pirulitos de água, mas com maior ou menor dificuldade, lá conseguiu alcançar um local onde tivesse pé e foi, com grande alívio, mas ainda um pouco titubeante, que se içou, ainda a medo, para uma das margens do rio.
Mas algo estava diferente. Agora estava do lado de dentro da cascata. Estava muito mais escuro do lado em que estava agora. E mais húmido ainda do que lá fora, se é que tal coisa era possível.
- Mau, pensou.
- Querem ver que tenho que me meter outra vez dentro de água para sair? Vou ver se dá para ir em frente, pode ser que dê para dar a volta pelo outro lado. E, resolutamente, deu dois passos em frente e começou a caminhar na direcção de um pequeno raio de luz que surgia no meio da escuridão.
Ao se aproximar da saída, percebeu que devia estar no interior de uma caverna, com duas entradas. Uma era aquela pela qual tinha entrado, oculta pela queda de água. A outra, aquela pela qual iria sair dentro de instantes.
- Oxalá a saída vá ter à outra margem do rio, murmurou baixinho.
- Assim que se viu novamente no exterior, a custo manteve os olhos abertos. A escuridão da caverna fê-lo levar algum tempo a habituar de novo os olhos à luz do dia, e ia piscando e esfregando os olhos, enquanto caminhava, num passo ainda inseguro.
- Que estranho, pensou. Não vejo o rio em lado nenhum. Mas onde vim eu parar?
Um pouco aborrecido consigo mesmo por ter caído ao rio, atirou palavras soltas ao ar, tentando-se consolar:
- Bolas, que grande azar!
- Que chatice!
- Arranjo que ainda me constipo, só me faltava mesmo isso.
- Parecia que estava mesmo a adivinhar o futuro. E deu um valente espirro, que abanou até as folhas das árvores mais próximas. AAATCHIM! E depois outro, e outro. ATCHIM! ATCHIM!
Qual não foi o seu espanto quando um esquilo que o observava atentamente desde que saíra da caverna, lhe respondeu do alto de uma árvore:
- Santinho.
Ao princípio, nem acreditou. Julgou que fosse o vento a agitar os ramos das árvores, ou a sua fértil imaginação.
- Santinho, repetiu o esquilo.
Ficou boquiaberto. Agora estava de olho no esquilo e viu os lábios dele mexerem-se. As orelhas espetadas para cima, olhava para ele fixamente, de forma um pouco estranha.
- Santinho, meu amigo. Deves estar perdido. O que fazes por estas paragens? É muito raro ver humanos por estas bandas.
Ainda mal refeito do susto, as palavras saiam-lhe a custo:
- Mas, tu falas? Que raios...?!!!
- Por certo que sim. Porquê, tens água nos ouvidos e ainda não ouves bem?
- Mas os esquilos não falam.
- Tsss, tsss. Deves ter batido com a cabeça numa pedra também.
- Mas como é que tu falas? Nunca tinha ouvido falar de um esquilo que conseguisse falar. Os animais não falam!!!
- Pois deixa-me dizer-te que neste lado da floresta, todo o animal que se preze gosta de dar dois dedos de conversa ao vizinho. Menos os que ainda são bébés para falar, claro.
- Claro, respondeu o incrédulo Rafael.
- Olha, vou-te deixar descobrir por ti próprio. Tenho que continuar a apanhar bolotas, pois o Inverno está aí à porta.
- Então adeus e obrigado pela ajuda, e com isto, concluiu o Rafael a conversa, continuando a tentar encontrar o caminho de regresso. Como a fome já fazia um nozinho na sua barriga, foi depenicando bagas dos arbustos que ia encontrando pelo caminho, engolindo-as de um trago. Amoras e framboesas, que delícia. Sabia que não eram venenosas, e comeu-as à vontade. Não era uma refeição a sério, mas eram muito saborosas e matavam a fome.
E continuou a caminhar. As árvores aqui eram um pouco menos altas, mas mais frondosas. Era impossível descortinar o que se passava entre a folhagem. A roupa entretanto começara a secar, mas ainda pesava bastante e pingava a cada passada que dava. Distraído com as roupas, que ia espremendo uma e outra vez, e com os animais com que se ia deparando no seu caminho, nem reparou que por entre a folhagem de uma dessas árvores, dois olhos brilhantes cor de opala o espreitavam, havia vários minutos.
De repente, uma enorme e sibilante pitão castanha lançou-se sobre si, apanhando-o completamente desprevenido. O Rafael entrou em pânico, mas ainda conseguiu ter sangue-frio para gritar SOCOOOORRO! o mais alto que pôde, antes de ser completamente envolvido num abraço mortal pela ameaçadora pitão. Vários animais da floresta que se encontravam na vizinhança ouviram o seu apelo e acorreram prontamente. Os primeiros a chegar foram várias aves de diferentes formas e tamanhos. Assim que viram a aflição em que o Rafael se encontrava, não pensaram duas vezes e começaram logo a dar bicadas e mais bicadas na cobra. Contudo, as bicadas, apesar de dolorosas, não foram suficientes para a cobra libertar o Rafael. Ele debatia-se como podia, o problema era que a cobra era forte demais para ele. Ao menos, o círculo de anéis que o envolvia era agora menos forte e ele conseguia respirar. A custo, mas conseguia. A cobra malvada é que não havia forma de o libertar.
Alguns lobos, que não gostavam nada, mesmo nada de cobras, entraram então em cena dispostos a ajudar. Uns atrás dos outros, surgiram do meio das árvores, como que num passe de mágica, saltando e arreganhando os dentes, com rosnados ameaçadores. A cobra pressentiu o perigo. O ajuntamento de animais era-lhe agora desfavorável e viu que não iria conseguir levar a sua adiante. Mais a mais, os dentes afiados dos lobos podiam provocar-lhe ferimentos sérios. Assim que sentiu o afrouxar dos anéis castanho brilhantes, deu um soco na cabeça da cobra com o resto de forças que ainda tinha. Para a cobra, foi a última gota de água. Lentamente, pois as cobras não se movimentam depressa, foi-se retirando do local, com o máximo de dignidade, que tentava aparentar. Foi vaiada e mandada embora num coro de assobios.
Os humanos que já tinham visitado aquela parte da floresta contavam-se pelos dedos das mãos e eram protegidos a todo o custo. Na conversa que se seguiu na clareira improvisada, os animais presentes contaram que há muito, muito tempo atrás, um humano chamado Jonas se tinha perdido, entrara naquela parte recôndita da floresta pela mesma caverna por onde ele entrara e com eles vivera até ao final dos seus dias. Nunca quis voltar para o meio dos outros humanos, pois ali era feliz. E durante os anos em que todos os animais conviveram com ele, o Jonas, de alguma forma mágica e secreta que se perdeu com o tempo, conseguiu transmitir a língua que falava, aos animais seus amigos com que partilhava a floresta e a quem ajudava, sempre que podia. Depois de morrer, os animais daquela parte da floresta fizeram uma reunião e decidiram perpetuar a memória do Jonas para sempre, falando a língua que este lhes ensinara e ensinando-a aos animaizinhos que entretanto iam nascendo e crescendo. Por esse motivo, todos ali sabiam falar muito bem. Com distinção, aliás. Alguns poderiam certamente envergonhar muitos humanos, se algum dia alguém se lembrasse de fazer um debate entre humanos e animais.
O Rafael escutou a explicação deliciado. Entendia agora o porquê do esquilo que encontrara antes, falar tão bem. Estranhava muito que assim fosse, é certo, mas muitas coisas são tão estranhas que não se deve tentar entender como acontecem, mas antes aceitá-las tal como elas se nos apresentam. Contra factos, não há argumentos. E era um facto que os animais falavam, quanto a isso não havia dúvidas.
- Gostaria só de deixar algumas palavras de agradecimento a todos. Muito obrigado por me terem salvo a vida. Sem a vossa ajuda, não estaria aqui a esta hora. Adorava ficar mais tempo com vocês, mas o tempo voa. Tenho que voltar para junto do meu pai que já deve andar aflitíssimo à minha procura. Está-se a fazer tarde e daqui a nada, é de noite.
Ao contrário do que acontecera à cobra, a despedida foi alegre, com muitos HURRAS! E VIVAS! à mistura e, no coração, o Rafael levava a gratidão eterna dos animais que o haviam salvo e dos quais nunca mais se iria esquecer. Tão contente estava com a despedida, que se esqueceu por completo de perguntar por que lado deveria seguir para voltar para junto do pai.
Um pouco mais adiante, encontrou uma águia que voava altaneira, em círculos, e lançava piares aflitos que se propagavam na vastidão do ar, como se qualquer coisa não estivesse bem.
- Será que também fala?, pensou. E se bem o pensou, melhor o disse.
- Passa-se alguma coisa, senhora águia?
A águia, castanha e muito elegante, deu ainda uma volta nos ceús, antes de lhe responder.
- Ai, meu Deus! Que hei-de fazer à minha vida? Fui caçar e quando voltei não encontrei o meu filhote no ninho. Não tarda o sol esconde-se atrás da montanha e se não o encontro, ele não sobrevive à noite.
- Terá caido do ninho?, perguntou o Rafael.
- Pode estar escondido nalgum recanto perto da árvore onde o ninho está.
- Não sei. Daqui do alto já procurei e procurei pelos arredores com a minha visão de águia, que é muito boa, mas não o consigo encontrar em lado nenhum. Será que me podes ajudar, jovem humano?
- Bem, estou com um bocado de pressa, mas posso tentar. Aqui em baixo dá para procurar em sítios que tu não consegues avistar daí de cima.
E começou a busca. Primeiro, procurou debaixo da árvore onde o ninho se encontrava. Procurou na vegetação rasteira, no meio dos arbustos, entre as pedras, mas nada. A alguma distância olhou então para um tronco caído, que apodrecia lentamente no solo da floresta. Era oco num dos lados.
Aproximou-se e espreitou lá para dentro. Não conseguia ver nada, mas teve a sensação que algum animal se ocultava no seu interior. Talvez o filhote de águia. E esticou a mão o mais que pôde para o seu o interior, tacteando com a ponta dos dedos pelo tronco, à medida que estes avançavam mais e mais para dentro. A dada altura, sentiu algo. Um monte fofo de penas comprimia-se agora contra a extremidade dos seus dedos. Estendendo um pouco mais a mão, sentiu um bico, acompanhado agora de um insistente piar aflito.
Só pode ser o filhote de águia. Deve ter caído e escondeu-se aqui, onde era mais seguro. Foi uma sorte ainda não ter aparecido nenhum animal perigoso que lhe fizesse mal. Foi uma grande sorte. E puxou-o como pôde para fora, aninhando-o junto ao seu peito, com palavras reconfortantes.
- Está tudo bem, pequena aguiazinha. Estás salva, e em breve estarás junta da tua mãe.
E chamou a águia, que acompanhara a busca e entretanto pousara num ramo próximo.
- Veja só o que eu tenho aqui para si, senhora águia.
- Oh, o meu precioso filhote! Graças a Deus! Como te posso agradecer, meu jovem e bondoso humano?
- O seu agradecimento é suficiente, não precisa oferecer-me nada. Porém, como me encontro perdido e já é tarde, se me conseguisse dizer que direcção tenho que tomar para reencontrar o meu pai, agradecia imenso. Quando o deixei esta manhã, ele caçava junto ao rio, do outro lado desta montanha. Depois de cair à água, atravessei a caverna escondida pela cascata, começei a andar em frente e agora já não sei o caminho para voltar. Só me apetece chorar. Está-se a fazer tarde e o meu pai deve estar muito, muito preocupado por eu ter desaparecido assim.
- Sim, meu jovem humano. Esta parte da floresta é muito difícil de ser alcançada... e mais ainda de ser abandonada. Mas como me ajudaste a encontrar o meu filhote, eu vou-te ajudar. A tua boa acção merece uma recompensa.
- Segue em frente até encontrares uma pedra branca mais ou menos do teu tamanho. Do teu lado esquerdo vais ver três carvalhos enormes. Depois de passares por eles, vais encontrar um caminho de terra batida, que é utilizado por todos os animais para irem beber água ao rio. Segue por essa vereda adiante e encontrarás a caverna e o caminho de regresso para junto do teu pai.
- Muito obrigado, senhora águia. Vou partir sem demora. Já vejo o sol a pôr-se no horizonte. Mais uma vez, muito obrigado pela sua ajuda.
- Ora essa, eu é que agradeço. Foi um prazer ter-te conhecido, jovem humano. Vai sem demora, pois se é assim como dizes, o teu pai deve estar ralado de preocupação a esta hora e sem saber que fazer.
O Rafael seguiu as instruções da águia e, em três tempos, encontrou-se novamente defronte da caverna. Uns coelhos que já tinham sido postos a par das suas peripécias por ali, foram os últimos animais falantes com que esteve, nesse dia mágico.
- Adeus, adeus!, gritaram todos. Regressa rápido para junto do teu pai e não te esqueças....
- Não contes a ninguém que nós sabemos falar, nem a entrada para esta parte da floresta.
- Claro que não, coelhinhos. Podem ficar descansados. Aliás, também acho que ninguém iria acreditar em mim. Eu próprio às vezes ainda me belisco para confirmar se isto tudo está de facto a acontecer e se vocês são todos reais.
Ao passar outra vez pela cascata, o Rafael lá teve de apanhar mais um rico banho para passar para o outro lado, mas desta vez até nem se importou muito. Quase em passo de corrida, seguiu pela margem do rio até onde o pai tinha estacionado o carro.
Mas, esperem lá. E o pai do Rafael?
Passámos a história toda a ver o que andava o Rafael a fazer e esquecemo-nos por completo de seu pai. Pois o pai Miguel teve um dia para esquecer. Não tinha caçado nada, o que até era hábito. Não era grande caçador, como já se disse atrás. Vinha mais para o contacto com a natureza, a adrenalina de perseguir a caça, fazer algum exercício e abater a barriga e para os seus almoços domingueiros no meio do mato com o farnel preparado pela esposa. Sim, isso era o principal. Queria lá saber se matava patos, coelhos ou outros animais.
Às vezes a esposa preparava-lhe os seus pitéus favoritos no dia seguinte, quando não apanhava nada. Às vezes até fazia de propósito para não levar nada, só para se deliciar com essas iguarias que eram de comer e chorar por mais.
Pois não ter apanhado nada, era a menor das preocupações do pai do Rafael. Se já pensava no jantar, era pelo adiantado da hora.
Passara grande parte do dia subindo e descendo o rio, num e noutro sentido, gritando o seu nome:
- RAFAEL! RAFAEL! ONDE ESTÁS?
E do Rafael, nada. Com a aflição, nem tinha disparado mais. Imaginou que o filho pudesse ter caído e estar ferido em qualquer parte, ou ter caído ao rio. Custava-lhe ainda pensar que algo de ruim pudesse ter acontecido ao filho. A sede de aventura é típica dos jovens da idade dele e o Rafael era muito, muito aventureiro. E imprudente. Talvez se tivesse afastado demais para explorar os arredores e não soubesse o caminho de volta. Por isso, enquanto o dia não chegasse ao fim, ia continuar a chamar por ele e a procurá-lo junto à margem do rio.
O problema é que o dia ia quase no fim e o seu filho teimava em não aparecer. Devia andar morto de fome, o farnel feito pela mãe nem saíra da sacola que trazia pendurada no ombro. Morto de fome como ele, de resto. O apetite fora-se todo com o desaparecimento do filho e tembém nem tinha almoçado.
Um pouco afastado da margem do rio, procurava pelo Rafael, incessantemente e cada vez mais aflito:
- RAFAEL, APARECE! RAFAEL!
E o Rafael apareceu. Finalmente.
- Estou aqui, pai. Está tudo bem, disse, ainda ofegante.
- Por onde andaste, filho? Estava morto de preocupação por não saber nada de ti.
- Está tudo bem contigo, filho?, perguntou com a voz um pouco embargada pela emoção.
- Sim, pai. Está tudo bem, repetiu.
- Mas tu estás todo molhado. O que é que se passou?
- Ah, é uma longa história. Caí ao rio, mas não me magoei. Eu prometo que depois conto.
- Nunca mais desapareças assim sem dizer nada. Se soubesses como eu passei o dia. Nem comi, filho.
- Desculpa, pai. Foi sem pensar. Prometo que nunca mais se torna a repetir.
E abraçaram-se, os dois, um pouco comovidos pelo reencontro. Um longo e forte abraço aos primeiros raios de luar. Por testemunha, um mocho que piava a espaços, anunciando a todos que a noite finalmente chegara.
- Vamos para casa, Rafael. O apetite regressou-me.
- Sim, estou cansadíssimo. A mim também, respondeu o Rafael.
- Vamos lá ver o que a nossa mãe preparou para o jantar.
No caminho para casa, o Rafael olhava repetidamente para trás pelo espelho do carro. Perdido nos seus pensamentos, pensou se tudo teria realmente acontecido. Ainda lhe custava a crer que semelhante coisa pudesse ser verdade. Animais falantes. Fosse como fosse, no futuro iria ter certamente mais respeito pelos animais. Já viram a confusão que era se de repente todos os animais desatassem a falar?
Em vez de uma floresta mágica, um mundo mágico onde todos vivessem felizes e em harmonia.
Sorriu deliciado com o pensamento, virou-se para trás e fez um último adeus à floresta mágica. Fora um dia inesquecível.

Autor: Pedro Luís Laima Bicho.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Os dez patinhos

Mais uma história infantil criada nos tempos mortos, quando não havia clientes à vista na Fnac do Algarve Shopping. Foi terminada a 19 de Novembro.

Os dez patinhos

Havia algo diferente no ar nesta manhã de Primavera. Na quinta onde esta história se passa, tudo estava anormalmente calmo. Não se via vivalma. Só o galo Venceslau já se manifestara, algum tempo atrás, anunciando o raiar de um novo dia. De resto, era o silêncio total. Nem sequer se ouvia o som dos passarinhos, tão costumeiro por aquelas bandas.
Na casa dos donos da quinta, ambos dormiam ainda a bom dormir, apesar da manhã já ir adiantada.
Mas eis que surge o primeiro personagem da história, bamboleando o corpo roliço, ora para um lado, ora para o outro, num passo lento, mas seguro. Pelas frestas da janela, era possível ao cavalo da quinta, de seu nome Príncipe, ver os donos da quinta ainda deitados na cama, cada qual virado para o seu lado. O velho Pôncio parecia, aliás, prestes a estatelar-se no soalho, tal era a posição em que se encontrava. Os lençóis, mais puxados para o seu lado, mal o cobriam. Parte destes estendiam-se pela madeira do soalho. A sua esposa, de nome Maria, dormia recatada no canto oposto da cama. Parecia dormir na paz dos anjos.
Mas voltemos à nossa história... na garupa do Príncipe vinha o Newton, seu maior amigo e o maior galã do pombal.
- Pois é, Princípe, deve ser hoje o grande dia. A pata Alice já está a chocar no ninho faz quase um mês, e pelas contas dela, é hoje que nascem os filhotes.
- Foi ela que te disse?
- Sim, passei ontem na capoeira e estive a conversar com ela um pouco. Coitada, está aborrecida de estar no ninho estes dias todos, confirmou o Newton.
- Vamos fazer-lhe uma visita, sugeriu o Princípe. O Newton acenou com a cabeça que sim, arrulhando de satisfação.
À entrada da capoeira, acotovelavam-se vários outros animais da quinta, num grande alvoroço, tentando saber as últimas novidades. O porco Gabriel e o burro Leopoldo, de olhos muito esbugalhados, seguiam tudo com muita atenção a um canto. As comadres galinhas cacarejavam animadamente umas com as outras. Algumas cabras e ovelhas amontoavam-se ainda à entrada, balindo a espaços. Só o velho cão Fiel permanecia a dormitar dentro da sua casota. Mesmo que quisesse, não seria possível juntar-se aos demais animais. Uma pesada corrente limitava-lhe os movimentos. O máximo que se conseguia deslocar era meia dúzia de passos para a frente e para trás.
Grande como era, o Princípe lá foi abrindo caminho por entre a bicharada.
- Com licença, com licença, deixem passar, repetia uma e outra vez.
Mais encontrão, menos encontrão, um puxa aqui, um puxa ali e em dois minutos conseguiram chegar à frente. Entrou o Newton, e, pigarreando um pouco, perguntou:
- Então, Dona Alice, há novidades?
- Hum, hum...
- Isso é um sim ou um não?
- Hum, hum...
À segunda vez sacudiu-se, toda inchada, levantando as penas. E, por entre as plumas da pata Alice, minúsculas cabecinhas surgiram, primeiro uma, depois outra, e outra e outra...
Newton abriu o bico de espanto. Agora que estava com mais atenção, ouvia também um tímido piar vindo de baixo da pata Alice.
- São tantos, disse ele. E contou nove lindos patinhos amarelos.
- Então teve nove patinhos, dona Alice. Mas oiço um piar insistente debaixo de si, a senhora estava a chocar quantos ovinhos?
- Hum, hum. Dez.
- Tem a certeza?
- Mas pois claro. Eu não me ia enganar numa coisa dessas. Disse que só contou nove patinhos?
- Sim, mas ainda escuto um piar que parece vir de dentro das suas penas.
Dito isto, a pata Alice ergueu-se, revelando o tesouro oculto sob si. Nove pequenos patinhos amarelos de bicos alaranjados e olhos muito abertos fixavam nele o olhar, como se fosse a coisa mais estranha do mundo. Um pouco afastado, um ovinho de cor esbranquiçada ainda permanecia inteiro. O piar parecia vir de lá.
Mirando mais de perto, Newton vislumbrou pequenas rachas ao longo da suave superfície do ovo. Conseguiu vislumbrar um pequeno bico alaranjado, tentando quebrar a casca pelo lado de dentro, mas sempre sem sucesso. Nem pensou duas vezes. Chegou-se à frente e começou também ele a bicar na casca branca do ovo.
Tanta determinação fez com que em três tempos a casca cedesse e os olhos do patinho vissem pela primeira vez o mundo que iria ser o seu dali em diante.
Uma mancha escura na cabeça distinguia este patinho dos demais. Parecia que trazia um carapuço enfiado na pequena cabecinha.
Ficou logo baptizado de Pintas.
Dona Alice estava radiante por estar tudo bem. Grasnando ruidosamente, encaminhou-se para a entrada da capoeira, seguida pelos dez patinhos, uns atrás dos outros.
Cá fora, a confusão era cada vez maior. Mas, como que num passe de mágica, todos se silenciaram ao surgir Dona Alice. Dirigindo-se a todos, disse do improvisado palanque:
- Está tudo bem. Todos os patinhos nasceram de boa saúde e estão todos bem. A partir de hoje há dez novos habitantes na quinta.
- Queremos vê-los, queremos vê-los, repetiam todos, insistentemente, num grande burburinho.
Afastando-se para o lado alguns segundos depois, os patinhos surgiram finalmente à multidão de olhares curiosos que olhavam na sua direcção.
- São lindos, cacarejavam as galinhas.
- Aquele tem um carapuço na cabeça, disseram o porco Gabriel e o burro Leopoldo, fazendo coro.
E foram todos, um a um, dar as boas-vindas aos novos habitantes da quinta. Os patinhos, um pouco assustados com a confusão, a todos piavam em uníssono, dando os bons dias. O piar do Pintas, o último a nascer, sobressaía dos demais. Parecia que os patinhos já tinham líder.
Feitas as apresentações, o porco Gabriel e o burro Leopoldo prontificaram-se de imediato a mostrar a quinta aos patinhos.
Dona Alice acenou que sim, com um ar algo austero e disse:
- Mas não levem a tarde toda nisso e tenham cuidado, sim?
- Pode ficar descansada, disse o porco Gabriel.
- Eles estão seguros connosco. Não se aflija, Dona Alice, anuiu o burro Leopoldo.
Primeiro foram ao celeiro, onde o velho Pôncio armazenava os cereais e algumas ferramentas. Pelo caminho, foram cumprimentados com alguns latidos pelo cão Fiel, que entretanto despertara e se espreguiçava ao sol.
- Quá-quá-quá, piavam os patinhos de espanto.
- O que é aquilo?, perguntou um.
- É o tractor da quinta. Serve para arar e cultivar os campos à nossa volta.
- E aquilo?, perguntou outro.
- São ancinhos, enxadas e sacholas. Fazem o mesmo, mas são mais pequenos. O velho Pôncio utiliza-os na horta, que é onde vamos a seguir.
E lá se encaminharam todos na direcção da horta, que ficava mesmo ali ao lado. Primeiro o porco Gabriel, ladeado pelo burro Leopoldo, seguidos os dois pelos patinhos, numa longa fila indiana de longos corpinhos amarelos e biquinhos laranja-vivo lindos de morrer, como já se disse atrás.
Tudo era novidade para os patinhos. As cores, os ruídos, os cheiros e as formas, tudo era motivo de espanto e admiração.
- Aquilo são alfaces. Acolá, temos couves. E além daquele lado, tomates e pepinos. Os tomates são redondos e encarnados, ia explicando o porco Gabriel, à medida que caminhavam.
- A não ser que ainda estejam verdes, gracejou o burro Leopoldo, terminando a frase com um ruidoso ih!-oh! Zombeteiro.
O Pintas, que era o mais impetuoso, já andava a perseguir um escaravelho que tivera o azar de passar por ali naquele momento O coitado do escaravelho bem tentava fugir, mas como tinha umas patinhas muito pequeninas, andava muito devagar. Tanta bicada levou, que decidiu abrir as suas asas e num ápice, tinha voado para bem longe.
Em seguida foram conhecer o charco dos patos, que ficava num dos extremos da quinta. A cerca de 100 metros, moravam os donos desta, num enorme e velho casarão de dois pisos, com um alpendre pintado de azul-claro, que ameaçava ruir, mais ano, menos ano.
Parecia que algo mais forte que eles os chamava para a água. E todos foram molhar as patinhas e gargarejaram bem alto. As rãs do charco, entretanto, olhavam, atentamente para os pequenos invasores, um pouco receosas. Mas nenhum dos patinhos lhes ligou nenhuma. A não ser, adivinhem quem... pois claro, a não ser o Pintas.
Correndo à volta do charco o mais depressa que podia, foi fazendo as rãs saltarem uma a uma, para dentro de água. Divertiu-se imenso com as rãs. Elas é que não acharam piada nenhuma ver acabar assim o seu rico banho de sol. Entretanto, o grupo já recomeçara a marcha. O burro Leopoldo sempre com um olho à frente e outro atrás, não fosse o Pintas fazer alguma e perder-se pelo caminho. Teve de andar a bom andar para alcançar todos, que entretanto, já iam andando na direcção do velho casarão. O burro Leopoldo só descansou quando os patinhos estiveram de novo todos reunidos. Lembrava-se bem da promessa feita à pata Alice.
De uma das janelas vinha um forte odor adocicado. Devia ser D. Maria a preparar o pequeno-almoço.
- Lembrem-se de nunca entrar dentro deste casarão, é onde os donos da quinta vivem, disse o porco Gabriel.
- Já só falta passarmos pela vacaria, onde vivem os animais de maior porte.
E dirigiram-se todos na direcção do moinho de vento, ao lado do qual esta se localizava. Quando chegaram, os dois explicaram onde cada um morava e a quem pertencia cada divisória, ao que os patinhos acenavam a tudo que sim, piando baixinho.
- Esta é para as cabras e ovelhas. Lá no alto, onde estão aqueles buracos, vivem os pombos, incluindo o Newton, que ajudou o Pintas a nascer esta manhã. E aquela além onde estão os fardos de palha, é onde eu e o Princípe vivemos, disse o burro Leopoldo.
- E eu fico além naquele canto, acrescentou ainda o porco Gabriel.
- Bom, acho que já chega por hoje. Vamos regressar à capoeira antes que a pata Alice venha à nossa procura. Por esta altura, já deve andar preocupadíssima e vejo que vocês também já estão cansados de tanto andar, disse ainda.
Ao regressarem, o Pintas reparou em algo estranho. Junto à capoeira estava um carrinho de mão verde... e algo mais.
- O que será aquilo?, pensou.
- Vou investigar, decidiu nesse instante. E se bem o disse, melhor o fez. Como as suas aventuras anteriores perseguindo o besouro e as rãs tinham sido tão divertidas, não tinha dado ainda dois passos e já levava na sua cola todos os seus irmãs e irmã, em fila indiana. Só o porco Gabriel e o burro Leopoldo é que não se aperceberam de nada, continuando tranquilamente a sua marcha rumo à capoeira.
Algo branco e ruivo apareceu brevemente, para logo tornar a desaparecer por trás do carrinho de mão. Uma cauda.
- Será um animal da quinta que ainda não conhecemos?, comentavam alguns entre si.
Agora que já estavam mais próximos, já conseguiam ver as formas do animal.
- É parecido com o cão Fiel, não é?, disse o Pintas.
Falou baixinho porque algo não lhe parecia estar bem. Porque estava aquele animal tão estranho e de ares furtivos, escondido por trás do carrinho de mão? E parecia que se preparava para fazer algo.
Quando deu um passo na direcção deles, farejando o ar, dois olhos brilhantes, cheios de malícia, puseram todos aqueles coraçõezinhos a bater a 100 à hora. O animal ruivo com manchas brancas, estava a olhar para eles.
Piaram com toda a força, tanto e tão alto, que, mesmo à distância, o porco Gabriel e o burro Leopoldo, se assustaram com os piares aflitos, correndo de imediato em seu auxílio.
Chegou primeiro o burro Leopoldo, pois corria mais depressa que o seu amigo Gabriel.
Ao chegar, deparou-se com uma astuta raposa, que perseguia os patinhos, fugindo estes cada um para seu lado. Essa táctica estava a dar resultado, pois ainda nenhum tinha sido apanhado. Parece que tinha chegado mesmo a tempo.
A raposa não pensou duas vezes. Já todos na quinta estavam alertados para a sua presença e o tamanho do burro Leopoldo intimidava-a. A situação agora tornava-se perigosa, mas era para ela.
Confirmou-o no instante seguinte, quando recebeu um valente coice do burro Gabriel, acompanhado de ameaçadores zurrares. E, à distância, mais animais se aproximavam.
Fugiu como pôde na direcção da horta, correndo e mancando, pois o coice tinha sido bem forte.
Atrás de si vinham já vários dos animais da quinta, e pior se tornou a situação quando o velho Pôncio a avistou também.
Num último esforço, conseguiu ocultar-se por entre a vegetação, entredentes rangendo de raiva, pelo chinfrim que os patinhos tinham iniciado e que lhe tinha tornado a vida num verdadeiro inferno nessa manhã.
Na quinta, todos os animais rodeavam agora os patinhos, congratulando-os pelo feito.
- Três vivas aos patinhos, foram uns verdadeiros heróis!, ouviu-se um deles gritar.
- Viva!, Viva!, Viva!, gritou a multidão de animais.
A pata Alice exultava de contentamento. Os seus patinhos tinham sido uns heróis por terem sobrevivido ao ataque da raposa e alertado os outros animais da quinta para a presença desta. E logo no dia em que tinham nascido. Estava muito orgulhosa deles todos.
Ao final do dia, até D. Maria foi visitá-los à capoeira.
Aconchegou os pequenos patinhos no seu regaço, dizendo baixinho:
- São uns verdadeiros heróis, estes meus patinhos amarelos.
Nenhum compreendeu as estranhas palavras de D.Maria, mas todos perceberam o que significava.
E piaram baixinho de contentamento... quá-quá-quá!

Autor: Pedro Luís Laima Bicho 19/11/07

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

O aviãozinho de papel

Após um longo período de abandono, volto a postar no blog. Vou tentar trabalhá-lo com mais regularidade nos meus tempos livres, que cada vez são menos. Há muito para contar e mostrar nestes meses que se passaram. Aliás, muito mais, se fizer uma viagem ainda mais para trás em direcção ao passado. A seu tempo. 2007 foi um dos anos que vivi mais intensamente, calcorreando caminhos de terra e caminhos de alma. Muita coisa mudou desde Maio. Em Julho voltei para Portugal (não sem antes ter feito mais uma das minhas viagens por países de Leste e à Noruega profunda), passei uma semana como tripulante de um veleiro por mares da Dinamarca, a viagem de regresso foi uma viagem non-stop de carro atravessando a Europa desde Maasholm, num dos extremos da Alemanha, e depois gozei dumas merecidas férias por terras algarvias.

De momento, trabalho como professor em Albufeira, dou explicações num centro de explicações e em Novembro e Dezembro estive na Fnac do Algarve Shopping (passo a publicidade) a trabalhar como vendedor/promotor de vendas de uma colecção de livros personalizados intitulada: "O herói sou eu", a qual já são capazes de ter ouvido falar, pois foi amplamente divulgada pela comunicação social. São cinco histórias (sete, se dessas cinco incluirmos duas disponíveis também em inglês) da autoria de Maria João Lopo de Carvalho, que têm o condão de fazer das crianças heróis de palmo e meio sempre que as páginas dos livros sejam folheadas. Um conceito interessante em que os livros são criados na hora, bastando para tal que o cliente forneça alguns dados que são editados e depois fornecem um cunho individual às crianças a quem os livros são oferecidos. Como me considero uma pessoa criativa, adorei esta oportunidade (apesar de ser imensamente mal pago!) de poder fazer livros e abordar potenciais clientes (só custa mais ao princípio), inserir dados, imprimir, colar, dobrar, agrafar, etiquetar, até finalmente se chegar à versão final em que o livro é entregue nas mãos do cliente. Saber fazer livros e não tão somente escrevê-los, uma condição sine qua non, que interiorizei, caso algum dia me aventure a publicar algo de minha autoria. Algo que considero essencial. Para escrever um livro, são precisas muito mais que meras palavras. Muitos escritores avulso da nossa praça escrevem e escrevem, sem que haja essa comunhão empática com o livro, sem esse entendimento umbilical surdo-mudo e por isso, frequentemente, os resultados, não são famosos.

Ora como o meu turno na Fnac era o turno das manhãs (7 dias por semana), e muitas vezes a essa hora eram mais os empregados que se passeavam pela Fnac do que os clientes, acabei por criar nas horas mortas, uma série de histórias infantis por lá, e assim acabei por dar o tempo por mais bem empregue. A história que se segue foi a primeira delas, num total de quatro. Uma história simples, pois ainda nunca tinha feito nada no género.

O aviãozinho de papel

Estava um belo dia de sol. Como é normal, em Agosto.Tão bom estava o dia, que o Miguel resolveu ir para a rua brincar, pois aborrecia-se imenso em casa. Ele adorava brincar. E durante as férias de Verão, tinha todo o tempo do mundo para fazê-lo. Correu a tocar às campainhas dos amigos que moravam na mesma rua, e em três tempos, o grupo estava formado.
Eram cinco, no total. O Miguel, o Vasco, que era o seu melhor amigo, o António e o Paulo, irmãos que moravam num prédio em frente ao seu, e o Ângelo, de quem ainda era primo afastado e que morava ao fundo da rua.
Foram todos para um parque enorme que ficava a cinco minutos de distância, contando piadas pelo caminho. No meio do parque existia um enorme lago, onde os patos ensurdeciam quem passava com os seus quá-quás estridentes. À roda deste, algumas árvores davam preciosas sombras.
Eram três da tarde e o sol estava mesmo a pique. Sentaram-se todos à sombra da maior das árvores que circundava o lago a decidir ao que iriam brincar.
- Vamos jogar às escondidas, disse o Vasco.
- De acordo, repetiram os outros em coro. Mas tão alto, tão alto, que por um instante, os próprios patos se silenciaram.
Calhou ao António ser ele a procurar pelos restantes.
- Um, dois, três, quatro...
E assim prosseguiu até chegar aos cinquenta, acelerando perto do fim, para ver se apanhava algum amigo distraído.
O Ângelo foi o primeiro a encontrar onde se esconder. Foi-se colocar por trás de uma banca de gelados e ali aguardou pelo final da contagem.
O Paulo e o Vasco esconderam-se dentro da casa-de-banho do parque, à qual se chegava através de um estreita vereda em terra batida.
O Miguel foi o último a encontrar esconderijo. Vejam lá se conseguem adivinhar onde se foi esconder. Pois não é que ele pulou a cerca e se enfiou na casota dos patos, onde eles se abrigam à noite?
Dentro da casota estava escuro. Muito escuro. A custo, lá se encolheu a um dos cantos e pôs-se a ver se escutava alguma coisa vinda do exterior.
Entretanto, o António já terminara a contagem e caminhava na direcção da banca de gelados.
Nessa mesma altura, o Ângelo resolveu, imprudentemente, espreitar para ver onde estava o António. Foi logo descoberto. E foi numa correria desenfreada que os dois prosseguiram até à árvore onde o António fizera a contagem. Este chegou primeiro, mas por pouco. O Ângelo recuperara terreno e vinha já a morder-lhe os calcanhares.
- Foste apanhado. Estás fora do jogo, disse o António.
- Vou ver dos outros. Viste para que lado foram?
- Nem penses que te digo alguma coisa, mas não podem ter ido muito longe. Tu contaste tão depressa.
Nesse momento, o Miguel estava curiosíssimo com o que se passava lá fora. Já teria sido alguém apanhado? Não conseguia escutar nada por causa do grasnar dos patos. E na penumbra da casota, dificilmente conseguia vislumbrar mais do que uma ténue luz vinda de fora. Suficiente, no entanto, para ver que algo brilhava no cimo de um monte de lixo no canto oposto da casota. E foi ver o que era...
Mal sabia ele que o António passava nesse preciso instante em frente ao recinto dos patos. Ainda espreitou para dentro, mas pensou que nenhum dos seus amigos fosse suficientemente tonto para se ir esconder lá dentro. E prosseguiu, aproximando-se cada vez mais da casa-de-banho do parque.
- Bem, lá dentro já me parece mais provável que algum se tenha ido esconder, pensou para com os seus botões. E resolveu ir dar uma espreitadela. Os dois rapazes que estavam escondidos no interior, estavam em pulgas. Tinham-no visto aproximar-se e sabiam que estavam em risco de serem descobertos. Estavam trancados dentro de um dos pequenos compartimentos. Seria o esconderijo perfeito, não fosse por um pequeno pormenor. A porta tinha uma grande fisga através da qual era possível a quem estivesse do lado de fora ver a parte de baixo do seu interior. E dois pares de ténis último modelo como os que o Paulo e o Vasco tinham comprado recentemente, não havia muitos por aí.
O António sorriu e perguntou:
- Está alguém aí dentro?
Ninguém respondeu. Mas os dois estavam cada vez mais agitados e, da segunda vez que a pergunta veio, acompanhada por batidas insistentes na porta, foi a gargalhada geral.
- Apanhei-vos, exclamou o António. E desatou a correr na direcção da árvore. Com o tempo que perderam a destrancar e abrir a porta, não tinham hipóteses nenhumas de chegar primeiro. E ficaram fora do jogo também. Só já faltava encontrar o Miguel.
- Mas onde se escondeu o Miguel, comentou o António com os outros. Já dei duas vezes a volta ao lago, espreitei em todo o lugar e nem vivalma.
- Às tantas, foi-se embora, disse um.
- Ele não fazia isso, disse logo o primo.
- Bom, mas então está muito bem escondido, replicou outro.
E resolveram todos ir procurá-lo.
Mas vamos voltar um pouco atrás na história. Lembram-se do que estava a fazer o Miguel quando o António passou em frente desta, sem desconfiar de nada?
O Miguel esticou a mão o mais que podia, tacteando o espaço em redor. Lentamente, sentiu uma superfície áspera primeiro, suave depois.
Parece papel, pensou. Tocou novamente e confirmou as suspeitas. Só pode ser papel. Mais confiante, pegou na estranha forma de papel e, aproximando-a de si, examinou-a com mais atenção.
Mas isto é um aviãozinho de papel. Que estará fazendo aqui dentro, pensou. E chegou-se um pouco mais à entrada, para ver um pouco melhor.
É mesmo um aviãozinho de papel. Amarelo nas asas, corpo e cauda de um azul-celeste que quase encandeava o olhar. Muito vistoso. Lindo de morrer. Será que voaria? E pensou que para experimentar, teria de ser em frente ao lago, onde havia espaço suficiente. Mas aí corria o risco de ser descoberto.
- Vou arriscar, decidiu resoluto. Também já estou aqui faz tanto tempo, que se deve estar a fazer tarde.
Primeiro, surgiu uma cabeça do lado de fora da casota. Depois, um braço. Depois, outro braço. No outro extremo do lago, os seus amigos procuravam-no em conjunto.
- Miguel, aparece. Temos de ir embora que se está a fazer tarde.
E de facto assim era. O sol já baixava no horizonte e não tardaria a ser completamente de noite.
Ao sair da casota dos patos, de novo a mesma algazarra. Agitados, estes batiam as asas, levantando poeira e penas, e afastavam-se à medida que o Miguel caminhava. A confusão foi tanta que dificilmente passaria despercebida aos seus amigos. E assim foi.
- Lá está ele! Junto à vedação dos patos! - exclamou o Vasco.
- Que anda ele a fazer lá dentro?, comentou o Paulo.
- Então era ali que ele estava escondido, replicou o Vasco novamente.
- Mas que grande tonto, rematou o António. E caminharam todos na sua direcção.
- Até que enfim, Miguel. Estamos fartos de andar à tua procura, disse o António.O jogo acabou, vamos embora para casa, acrescentou.
O Ângelo ofereceu ajuda ao primo para saltar a vedação, mas ele recusou. Ao saltar a vedação, todos viram algo que brilhava na sua mão, ao toque dos últimos raios de sol do dia.
- O que é isso que tens aí?, perguntaram todos em atropelo.
- É um aviãozinho de papel. Encontrei-o ali dentro da casota, respondeu ele.
- Já experimentaste a ver se voava?, perguntou um dos amigos.
-Ainda não tive tempo, mas se todos estiverem de acordo, vamos ali para a beira do lago ver que tal ele voa e depois vamos então para casa.
O aviãozinho de papel azul e amarelo não estava nada amachucado. As probabilidades de voar ao menos alguns metros eram bastante boas. As asas eram curtas, como as dos modernos jactos que cruzavam os céus em loucas correrias, e a cauda, que parecia um tanto ou quanto desengonçada, proporcionava um equilíbrio aerodinâmico perfeito. E era leve. Tão leve como a mais leve das penas que ainda esvoaçavam dentro do recinto dos patos.
- Cheguem-se para trás, vou lançá-lo. Vamos lá a ver que tal se comporta, disse o Miguel.
E, com um forte movimento da sua mão direita, impulsionou o aviãozinho de papel para a frente e para cima.
E o aviãozinho voou. Primeiro, em frente uns metros e subindo um pouco. O vento que ondulava ligeiramente as copas das árvores, fê-lo descrever um arco e, em seguida, atravessar o lago.
- Ora, vai cair no meio do lago, disseram o António e o Paulo ao mesmo tempo.
- Talvez não, replicou o Miguel. O aviãozinho é mesmo muito leve e eu lançei-o com toda a força que tinha. E pode ser que o vento dê uma ajudazinha, acrescentou.
Ao chegar a meio do lago, todos julgaram que o aviãozinho de papel iria desistir do seu vôo e cair das alturas, despenhando-se no lago.
Mas parecia que algo ou alguém estava do lado do aviãozinho azul e amarelo. Uma súbita rajada de vento fê-lo ganhar novamente altura e prosseguir em frente. Mais à sua frente, já novo obstáculo se aproximava. A copa de duas árvores parecia agora ser onde o heróico vôo iria terminar. Vôo esse, que, de resto, já excedera as expectativas de todos. Mesmo no último instante, e quando o final já se adivinhava, nova rajada de vento fê-lo guinar subitamente para longe da copa das árvores.
Por esta altura, já era difícil seguir o aviãozinho de papel com o olhar. Ainda tentaram segui-lo a pé durante algum tempo, mas quando este se começou a afastar cada vez mais, tiveram de dar a perseguição por finda.
Todos retiveram um brilhozinho no olhar, quando, após mais uma mudança de direcção do vento, o aviãozinho de papel azul e amarelo, reflectiu a luz do sol uma última vez, sumindo-se em seguida, por trás de uns prédios.
- Aposto que vai voar até à China, disse logo o Vasco.
- Pois eu acho que só vai parar no Japão e vai ser para atestar o depósito, gracejou o Paulo.
- Nunca tinha visto nada assim, parecia mesmo que era um pássaro e estava vivo, acrescentou ainda o Ângelo.
E foram todos para casa, discutindo o tempo todo sobre onde terminaria a épica viagem. Em todos a sensação que aquele aviãozinho de papel azul e amarelo era tudo menos vulgar.
Seria mágico? Estaria possuído pelo espírito de algum antigo aviador? E aquele estranho brilho, que mesmo com a chegada do anoitecer, teimava em dar alento a quem olhasse para ele, que estranho brilho seria? Era tudo muito, mesmo muito estranho.
Nessa noite, todos sonharam com o aviãozinho de papel azul e amarelo. Tiveram com ele as mais mirabolantes aventuras, voando por selvas desconhecidas, cruzando mares de uma imensidão nunca vista, planando sobre montanhas longínquas, sempre atravessando novas terras a cada passagem.
O Miguel, também sonhou. Cansado como estava das peripécias do dia, foi-se logo deitar após o jantar. A janela aberta, trazia uma brisa fresca que o fazia sonhar ainda desperto.
Mergulhou no Vale dos Lençóis e, antes de fechar os olhos deu uma última mirada para fora da janela, suspirando.
Era capaz de jurar que, por instantes, vira algo brilhar no firmamento. Uma estrela cadente, provavelmente. Não havia forma de saber. Ou seria outra coisa qualquer. Talvez sim... talvez não.... no coração, a secreta esperança que fosse o aviãozinho de papel azul e amarelo que lançara ao ar nessa tarde, continuando a sua viagem, sabe-se lá até que paragens distantes... e sorriu, adormecendo em seguida.

Autor: Pedro Luís Laima Bicho. 07-11-07

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Syttende mai

O dezassete de Maio é o dia mais importante no calendário norueguês e feriado nacional. Neste dia, as escolas saem à rua e celebram a data em que a constituição foi assinada em 1814 e onde se constituiu a nação norueguesa. Por questões políticas a independência de facto só se realizou no início do século XX. A língua é muito semelhante à língua dinamarquesa (em Copenhaga consegui ler os avisos e títulos dos jornais, o que me divertiu imenso), tendo feito parte do mesmo reino durante a maior parte da sua história. Como a Dinamarca se encontrava aliada a Napoleão e a França perdeu as guerras Napoleónicas, a Noruega foi uma das compensações de guerra que a Dinamarca teve de ceder à Suécia, aliada da Inglaterra e no campo dos vencedores. Quando os exércitos suecos, à data, dos mais poderosos da Europa, retornaram da Europa central, acabaram com as aspirações independentistas... até o início do século XX, pois a liberdade é chama que não se vê,capaz de arder longe da vista até o dia que emerge à superfície.

Legenda: Um pequeno discurso apropriado à ocasião no pátio da escola, umas quantas músicas com pendor nacionalista e ala que se faz tarde, que são horas de marchar!

Legenda: Crianças dos 3º e 4º anos, preparando-se para cantar algumas canções norueguesas, incluindo o hino nacional. Em norueguês, está bom de ver... não entendi a letra toda, mas a minha aprendizagem do norueguês prossegue a bom ritmo.

Legenda: o pátio da escola, onde os alunos têm o recreio diariamente. Mas não neste dia festivo. Muitos pais fizeram questão de estar presentes, acompanhando os seus filhos. E vestidos a rigor.

Legenda: Das fotos que tirei neste dia, esta é a minha favorita. Em primeiro plano, uma mulher trajando um bunad. Um bunad é um vestido tradicional norueguês, provavelmente de origem rural. Talvez porque nas pequenas comunidades não seja necessário andar de acordo com as modas, mas isto sou eu a opinar. Utilizados principalmente em ocasiões especiais, vêm em diversos padrões e cores e são para ambos os sexos. Os das mulheres são bastante mais vistosos. Eu pessoalmente, acho-os bastante estéticos e que ficam bem na foto, lá isso ficam!

Legenda: Preparados para partir. À frente, Kalvskinet (a escola pública) e atrás, Birralee (a escola privada, partilhando as duas o mesmo espaço).

Legenda: Foi uma sorte o dia estar de feição, pois os dias anteriores tinham sido de chuva. O São Pedro deve ter ouvido as preçes norueguesas pedindo bom tempo.

Legenda: O estandarte da escola e ao centro, um outro bunad. Trata-se do mesmo traje típico da foto acima, mas o padrão e as cores são diferentes.

Legenda: A abrir caminho, o estandarte, vindo os porta-bandeiras logo atrás (os alunos mais velhos, do 8º ano). "The woman in red" é a directora da escola Birralee, Trude Farstad.

Legenda: Dando os primeiros passos, ainda na rua Bispegata, onde a escola se situa. A escola Birralee localiza-se muito próximo da catedral Nidaros. Não dista seguramente mais de 200m desta.

Legenda: Como as escolas em parada vinham de direcções diferentes, as intersecções das ruas serviam como ponto de entrada, e como é óbvio, quem já estava em parada aguardava a junção e depois seguiam todos. A parada segue uma ordem pré-definida, segundo entendi, é por ordem alfabética.

Legenda: À frente, os alunos mais velhos, dos 7º e 8º anos.

Legenda: Nesta altura estava de novo toda a gente parada. As bandeiras norueguesas foram distribuídas à entrada da escola.

Legenda: Ao fundo, o Torvet, a praça central. Daí, seguimos em frente e depois com uma inflexão à direita e regressámos por Bryggen, junto ao rio Nidelva.

Legenda: Esta escola era a seguinte na ordem da parada e cheguei a colaborar com eles num projecto conkunto com a Middle School de Birralee sobre a chegada dos peregrinos do Mayflower à América. É uma escola para crianças com necessidades especiais e fica situada numa quinta, onde fabricam o seu pão e têm animais. Gostei bastante do local.

Legenda: Muita gente nas ruas, à espera de verem passar os seus filhos e filhas e tirar a fotografia da praxe para colocar no álbum de recordações. Em termos simbólicos, é o dia de maior significado na sua cultura.

Legenda: Monumento dedicado a Olav Tryggvason. Neste dia, colorido com as inúmeras bandeiras encarnadas, azuis e brancas. Olav abriu as portas do cristianismo aos vikings, julgando-se que tenha sido ele a construir a primeira igreja na Noruega, em 95. Julga-se que foi ele que fundou a cidade de Trondheim em 997, nas margens do rio Nidelva.

Legenda: A igreja de Nossa Senhora. À semelhança de outros monumentos, tem dias específicos de visita (às quartas e por um período de apenas 2 horas), o que é muito aborrecido para quem se encontra de visita e se vê assim impossibilitado de descobrir a cultura local. Nesta altura, a parada encontrava-se praticamente no final. A igreja original data do século XII, mas devido a vários fogos que grassaram na cidade em várias épocas, foi destruída diversas vezes. Em 1739 foi alvo de um processo de restauro extensivo, onde secções da parede original convivem com outras mais recentes.

Legenda: A parada perto do seu termo. No total, foi cerca de 90 minutos a desfilar pelas principais artérias do centro. Tendo em conta as perto de 100 escolas a desfilar, não foi muito demorado. O trajecto tinha cerca de 1000m, iniciando-se e terminando junto à catedral de Nidaros.

Legenda: Nidarosdomen e a bandeira norueguesa, símbolos noruegueses. Nesta catedral celebram-se os casamentos reais da família norueguesa, desdea proclamação da independência a 7 de Junho de 1905, culminando a separação política da Noruega e da Suécia, que durou perto de 100 anos.
Legenda: Dizem que os últimos são sempre os primeiros. Esta foi a última escola em parada: Ranheim.

segunda-feira, 26 de março de 2007

Trondheim 2018

Trondheim pretende ser palco em 2018 dos Jogos Olímpicos de Inverno. A campanha de promoção do evento já teve o seu início. Apesar de ninguém me pagar para patrocinar o evento, sempre posso dizer que acho que tem boas condições de ser bem sucedido. Trondheim tem óptimas condições e instalações para a prática de desportos de Inverno. O único senão é já ter sido realizado um não há muitos anos atrás, em Lillehammer, no sul da Noruega. A Noruega é, por excelência, o país dos desportos de Inverno. Todo o norueguês que se preze sabe esquiar e tem um amor profundo pela natureza e pelas actividades ao ar livre. Passam constantemente na televisão provas de esqui, nas suas diversas vertentes, bem como das outras modalidades de Inverno. Aliás, para além de me estar a iniciar nas artes do esqui, também estou a começar a observar com outros olhos a modalidade e o respectivo visionamento televisivo desta. Não é tão fácil como parece. Posicionar o corpo e dar o correcto balanço para as travagens, requer bastante prática e muitas quedas antes de se poder dominar perfeitamente a técnica.


Legenda: As baixas temperaturas em Trondheim são um ponto a favor na organização do evento. A imagem à direita é de meados de Fevereiro. Trondheim situa-se no centro do país (onde estão marcados -16ºC), tendo este cerca de 1800kms de comprimento por 400kms de largura. Contudo, próximo de Narvik, no Norte, a distância à fronteira sueca é inferior a 10kms e é pela Suécia que se faz a entrada em Narvik, devido às inúmeras montanhas em torno da cidade.

Legenda: Mapa da região de Trondheim, cuja Kommune tem o nome de Sør-Trøndelag. A imagem também é de Fevereiro, altura em que houve dias em que a temperatura baixou dos -20ºC. Como podem observar, foi um dia de sol. Quando a neve e o sol se combinam, os dias são bem mais agradáveis. À direita também é possível entender porque se fala da Noruega como sendo o país dos fiordes. Um recortado contínuo da paisagem que torna as comunicações difíceis e que cria regiões com os seus traços únicos.

Aqui fica o link para quem quiser consultar, o único senão é vir tudo em norueguês e não existir versão disponível em inglês: www.trondheim2018.no

Este link é de um pequeno filme que mostra algumas belas imagens de Trondheim, e faz parte da campanha publicitária de promoção do evento: www.trondheim2018.no/slik_blir_ol/filmer/trd2018_film.html

segunda-feira, 19 de março de 2007

Vou ali à Islândia e já venho...

A Islândia é um país situado no Atlântico Norte, junto à Gronelândia e mais perto da América do que da Europa. Contudo, é considerado como fazendo parte do continente europeu. É habitado desde o ano de 874, por clãs oriundos da Noruega, tendo a primeira colonização bem sucedida sido liderada por Ingólfur Arnarson. Fez parte dos Reinos da Noruega primeiro e, posteriormente, do Reino da Dinamarca, mas em 1944 declarou formalmente a independência face a este último. Uma terra agreste, sem recursos próprios, é contudo uma nação próspera e com um dos PIBs mais elevados a nível mundial. Um exemplo a seguir. Possui cerca de 300.000 habitantes, sendo Reykjavíc, a sua capital, a cidade mais cosmopolita e de maiores dimensões. A moeda utilizada é a coroa Islandesa e a língua falada é o islandês, que possui bastantes semelhanças com o norueguês. Tal como nas ilhas Faroés, foi-me possível reconhecer frases e expressões em ambos os locais a partir do pouco que já sei de norueguês.

Legenda: Mapa da Islândia. A branco, os glaciares, que infelizmente, por falta de tempo, não tive oportunidade de visitar. A cidade que visitei situa-se na costa Este, de seu nome, Seyðisfjörður. É um país que ganhou a independência à relativamente pouco tempo, tendo aproveitado a ocupação alemã do reino da Dinamarca, para proclamar a sua independência face a este último. Algo que ainda hoje, não foi muito bem digerido pelos dinamarqueses. Tal como as ilhas Faroés, serviu como ponto de apoio dos Aliados no decurso da Segunda Guerra Mundial.

Legenda: As gaivotas acompanhando o trajecto do barco. Sinal de que nos estávamos a aproximar de terra firme.


Legenda: Terra à vista! Por entre o céu enevoado, vislumbram-se os primeiros picos montanhosos da Islândia.


Legenda: O vento forte e gelado era uma constante no convés, intercalado com granizo, qual deles o mais desagradável...

Legenda: A entrada no fiorde que dá acesso a Seyðisfjörður. Um lugar inóspito, belo e selvagem. Desafiador.

Legenda: Seyðisfjörður, após a curva do fiorde. Ao longo das duas margens deste, casas isoladas surgiam esporadicamente, mas cada vez com maior frequência. Sinal seguro de que estava a chegar ao final a viagem... de ida.
Legenda: E eis Seyðisfjörður, ao fundo. De relançe, já é possível avistar as primeiras habitações. Uma pequena, mas muito acolhedora cidade com cerca de 700 habitantes.
Legenda: À medida que o barco se aproximava do porto, a sensação de estar a entrar num mundo à parte do bulício típico da maioria das cidades europeias.


Legenda: Hora de desembarcar. A imagem vale por mil descrições.


Legenda: A igreja local. A cor escolhida para as paredes enquadra-se lindamente na atmosfera circundante, como podem ver. Pelo menos, enquanto houver neve. Como nota à parte, a informação de que a religião oficial na Islandia é a religião cristã, através do seu ramo Protestante Luterano. Foi implantada por volta do ano 1000 D.C., na mesma altura em que se implantou de forma decisiva em todos os países escandinavos. No entanto, a religião pagã pré-cristã Ásatrú tem ganho popularidade nos últimos anos. Significa "verdadeiro aos Aesir" em norueguês arcaico.


Legenda: A escola local. Vista de fora, fica bem na fotografia.Mas seguramente, não tem muitos alunos. Creio que me devo ter cruzado, pelo menos de vista, com a quase totalidade dos habitantes da cidade. Mais uns dias, e talvez já os tratasse pelo nome.

Legenda: Uma das principais artérias da cidade. Uma coisa que estranhei foi ver pequenas árvores espalhadas pelas encostas circundantes, mas pelas suas dimensões reduzidas, por certo que plantadas recentemente. Só de olhar encosta acima, criava uma sensação um pouco desconfortável. Pelo que sei, a Islândia é um dos países que planta mais árvores anualmente per capita, e duas recentes tragédias em 1995, que reclamaram a vida de 34 pessoas, consciencializaram as autoridades locais da premência do problema e puseram mãos à obra. Reagir em vez de agir. Infelizmente.


Legenda: Um passeio sob um forte nevão. Eu sou o que caminha no lado direito da imagem. A temperatura indicada num placard por que passámos, marcava -6ºC.


Legenda: O rio que alimenta Seyðisfjörður. Em certas secções apresentava-se completamente gelado. Durante o passeio, devo confessar que tive o secreto desejo de me encontrar frente a frente com um urso polar (mas a uma respeitável distância), mas como eles não existem em estado selvagem na Islândia, tal foi impossível. De tempos a tempos, quando os Invernos são mais rigorosos, já têm chegado alguns em cima de icebergues até às costas da Islândia, mas são rapidamente devolvidos à procedência. A raposa é o predador de topo por estas paragens e, por razões óbvias, não existem répteis nem anfíbios e muito poucas espécies de insectos. Existem algumas renas em estado selvagem no norte, mas foram introduzidas recentemente. O resto da fauna é constituída principalmente por cerca de cem diferentes espécies de aves (88, para ser mais exacto), inúmeras espécies de peixe e por uma grande diversidade de mamíferos aquáticos. Em termos de vegetação, é principalmente rasteira e sem árvores de grande porte.



Legenda: E para além dos limites da cidade?!! Um deserto branco, esbatido na distância. Nada mais. A esmagadora maioria das localidades da ilha situam-se junto à costa, pois o interior é demasiado escarpado e inóspito para se viver. Relembro que a Islândia é um país de vulcões e glaciares, situado muito perto da Gronelândia. Qualquer das cidades edificadas por aqui é fruto do génio e da vontade humanas.


Legenda: A importância de uma boa observação... para os mais distraídos, trata-se de uma "gata das neves"!

Legenda: Sobranceiras a uma das encostas, treze letras iluminam a noite, tal qual "Hollywood". Visíveis de qualquer ponto da cidade. Especialmente à noite.



Legenda: Panorâmica da localidade e do intrépido aventureiro português! (o:

Legenda: Eu de novo e o barco da Smyril Line atracado no molhe do cais, ao fundo. Foi pena não ter dado para dormir no barco, pois o alojamento onde ficámos custou a módica quantia de 5500 IKr, cerca de 60€. Incluia pequeno-almoço e o hotel tinha boas condições, mas atendendo a que o grosso dos turistas aparece no Verão, bem podiam ter sido mais bonzinhos na factura.

Legenda: É assim que se limpam as estradas por estas bandas. Bem, limpam, é como quem diz. Fazem montinhos de neve aqui e ali e só tiram a que é impeditória à circulação automóvel. Mas como neva constantemente nesta altura do ano, o resultado é neve por toda a parte e a toda a hora. Mas enfim, ao fim de algum tempo, a gente habitua-se.

Legenda: A Guerra das Estrelas ao vivo e em directo. Nos confins desta galáxia, um pequeno e obscuro planeta iria providenciar a matéria-prima essencial a partir da qual as espadas Jedi são feitas. Mal sabia um destes pingentes gelados que iria entrar nos anais da história, ao tornar-se na espada-laser do celebérrimo Darth Vader...




Legenda: Ei-lo... o Darth Vader português. Com suas negras vestes e seu capacete negro igualmente peculiar, é o terror da nossa galáxia.





Legenda: Nem tudo o que parece, é. A inscrição em primeiro plano e a cabine ao fundo distam 30 metros uma da outra. O caminho parece direito, verdade? Na verdade, existe uma ponte de madeira, invisível devido à neve acumulada. A ida decorreu sem problemas de maior, mas ao regressar, quando dei por mim, tinha neve até à cintura. Cómico, mas podia ter tido consequências piores do que ter ficado com as calças todas molhadas.


Legenda: Palavras para quê?!!!


Legenda: Ainda hoje estou para saber porque é que este poste de iluminação era de cor diferente dos outros.


Legenda: Achei muita piada a este aviso. Como vive tão pouca gente por estas paragens, não se podem dar ao luxo de perder clientes, pelo que se alguém quiser comprar algo numa loja e esta estiver encerrada, só tem que ligar para casa dos donos e eles vêm. Muito prático.

Legenda: O rio local gelado. Não arrisquei caminhar sobre o gelo, mas julgo que era capaz de dar. Quando não se tem a certeza da espessura do gelo, o melhor é mesmo jogar pelo seguro. Todos os anos morrem várias pessoas por aqui, derivado a imprudências semelhantes.

Legenda: O hotel onde ficámos alojados. Hótel Aldan. Pequeno, mas acolhedor. O pequeno-almoço é tomado num outro edifício numa rua contígua, onde se situa a recepção.


Legenda: Aspecto de Seyðisfjörður. Cercado de montanhas por três lados, é uma pequena e calma cidade com cerca de 700 habitantes, onde a vida segue um ritmo muito próprio. A chegada do barco da Smyril Line é um dos momentos altos da semana. Seguramente ninguém sofre do chamado stress das modernas cidades ocidentais por estas bandas.

Legenda: Tempo de partir. Hora de largar as amarras e de novo rumo ao mar alto. Na bagagem, a sensação de ter descoberto algo de novo e diferente.


Legenda: A bandeira da Islândia desfraldada aos sete ventos, num bailado ininterrupto. O forte vento que amiúde se fazia sentir, seu par de dança, uma e outra vez.


Legenda: Adeus, Islândia. Até uma próxima vez.


Legenda: Peña no canto esquerdo da imagem, Arne ao centro e eu, do lado direito. Era hábito irmos para o convés admirar a paisagem, especialmente eu e o espanhol. Depois de dois dedos de conversa, de reter na retina as imagens, no coração as sensações e no corpinho o frio intenso, horas de voltar para baixo retemperar energias.


Legenda: O granizo fustivaga uma e outra vez o convés, como se pode ver pelo acumular de neve. Muito desagradável, especialmente quando atingia a cara. O vento por vezes soprava tão intenso que era necessário estar agarrado a qualquer coisa. Não faltou muito para perder o meu gorro borda fora.


Legenda: Escurece. O barco segue o seu rumo, imperturbável, rumo às ilhas Faroés.


Legenda: A vida a bordo. Rocio, de Espanha, à esquerda, eu ao centro e Juliana, da Alemanha, à direita. Como podem ver, era um quarto com 4 beliches, casa-de-banho, roupeiro, um pequeno frigorífico e tv. Tendo em conta que pagámos cerca de 1000 NKr pelo bilhete (cerca de 100€), eu diria que ficámos muito bem instalados. Aliás, o barco tinha boas condições e diversas áreas de lazer para descanso e diversão. Só me desagradou terem as saunas e a piscina encerradas, como sucede amiúde no Inverno, por estas paragens. Já vou estando habituado ao famoso: "Stengt for vinteren". Ou seja, fechado no Inverno. Mas o que é que eu hei-de fazer? Se entro à força, vou preso...

As ilhas Faroés são uma região autónoma do Reino da Dinamarca desde o ano de 1948. Anteriormente fizeram parte do Reino Noruega/Dinamarca, mas com a anexação da Noruega pelo rei da Suécia em 1814, tornaram-se dependentes apenas da Dinamarca. Possuem governo próprio, emissão de moeda (as notas locais têm motivos ligados à natureza e as moedas que circulam são as coroas Dinamarquesas), selecção nacional de futebol (criada recentemente), à semelhança de qualquer nação independente, mas os seus soberanos continuam a ser os reis da Dinamarca. Também as relações exteriores, a defesa e o sistema judicial continuam a ser administrados a partir de Copenhaga. Tudo o resto, é administrado a partir de Torshavn. A moeda utilizada é a coroa Faroesa, que circula a par com a coroa Dinamarquesa. Ambas possuem valor equivalente. O custo de vida é um pouco elevado, mais a mais, que a maioria dos bens têm de ser importados.

Legenda: Dezoito ilhas formam um singular arquipélago, desconhecido ainda por muitos. Situa-se a noroeste da Escócia, a meio caminho entre a Noruega e a Islândia, tendo por esse motivo, servido de apoio na expansão viking pelo Atlântico Norte. A capital, Torshavn, situa-se na ilha de maiores dimensões, chamada Streymoy. Do sopé das suas colinas, é possível avistar os picos gelados de algumas das ilhas circundantes.










Legenda: As ilhas Faroés na linha de horizonte. O arquipélago compreende 18 ilhas, mas desconheço de qual se tratava. Nesta altura o barco ainda se encontrava a cerca de uma hora de distância de Torshavn.

Legenda: A chegada a Torshavn.


Legenda: Vista da cidade de Torshavn, capital da região autónoma das ilhas Faroés. Possui cerca de 16000 habitantes, cerca de um terço dos residentes no arquipélago. Uma cidade em nada inferior a muitas existentes no continente.

Legenda: As heroínas da história. São elas que dão o nome ao arquipélago, como já referi acima.

Legenda: Uma igreja algo invulgar, pelas suas linhas arquitectónicas singulares. O seu aspecto compacto é facilmente identificável à distância e é um bom marco de referência para quem circula pela cidade. A entrada da igreja situa-se no lado oposto ao mostrado pela imagem. Existe um pequeno jardim, um pequeno lago e aquilo que me pareceu ser uma pequena estátua evocativa da conversão da população local ao cristianismo. Um guerreiro viking, de espada embainhada e braços abertos em forma de cruz.


Legenda: Encontram-se as coisas mais estranhas nos locais mais improváveis. Sem comentários...

Legenda: O porto de Torshavn. Ao fundo, o barco da Smyril Line, meu lar durante cerca de uma semana.

Legenda: Outra foto do porto, sob outra perspectiva. Apesar de existirem manchas de combustível e muito entulho sob a água, ainda assim, fiquei surpreendido com a limpídez desta. Sem grandes dificuldades avistei vários peixes sob o calado das embarcações, inclusivé um linguado, cujos contornos notei de imediato no fundo arenoso.


Legenda: A Primavera está à porta!!


Legenda: Estas casas de madeira respeitam a traça original que data do período Viking. O mais peculiar nelas são os telhados feitos de turfa e erva. Existem bastantes no centro histórico de Torshavn, mas também encontrei telhados semelhantes em alguns edifícios públicos e escolas. Não sei até que ponto são funcionais, mas que são bastante estéticos, lá isso são.

Legenda: Eu e a minha mania de me empoleirar em cima das coisas para tirar fotografias. O canhão é um de dois existentes junto ao farol, relíquias da Segunda Guerra Mundial. Na altura, Torshavn tinha importância estratégica no domínio do Atlântico Norte e os britânicos estabeleceram uma base aqui. Os canhões são praticamente tudo o que resta desses tempos, "protegendo" ainda hoje as duas entradas do porto. São bons para tirar fotografias. Um fim apropriado para máquinas destinadas a matar. Houvesse mais assim.


Legenda: Torshavn fica para trás. Luzes de civilização testemunhando o génio humano de erguer alicerces nos locais mais improváveis.


Legenda: À medida que o barco se aproximava da Noruega, foi possível avistar inúmeras plataformas petrolíferas ainda em mar-alto. Contei mais de 30, mas por certo havia muitas mais. O barco passou sempre a alguma distância, mas a espaços, era possível avistar várias em simultâneo. São a fonte de riqueza primária da Noruega e uma das razões porque figuraram em primeiro lugar entre todas as nações do mundo em 2006, no ranking de desenvolvimento humano. Mas, estranhamente, a gasolina não é assim tão barata quanto isso.


Legenda: A costa, finalmente. Magnífico contraste de azuis. Entre o azul do céu e o azul do mar, escolho o segundo.


Legenda: A bandeira da Noruega aos caprichos do vento.


Legenda: A prevalência de casas individuais, mescladas na paisagem, são uma das imagens de marca da Noruega. Aqui não há lugar para arranha-céus!!


Legenda: Bergen à vista!!!


Legenda: Após tantas horas a bordo, o merecido descanso. Com vôo de regresso a Trondheim marcado para o dia seguinte. À esquerda na imagem, é possível observar o HMS Northumberland, uma fragata britânica que se encontrava de visita à cidade. Não muito grande (classe 23), mas possuía inclusive um pequeno hangar onde vislumbrei de relançe pelo menos dois helicópteros. Daqueles articulados para ocuparem menos espaço. Mas igualmente letais.


Legenda: Perdido nos meus pensamentos. Infelizmente, a paisagem atrás não é real, mas uma das muitas ampliações de imagens espalhadas pelo barco. Truques fotográficos que resultam sempre muito bem. Enfim, podia dar-nos para pior...


Legenda: Novamente em Bergen. Balanço final da viagem: muito positivo.